Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

João Carlos Marchesan

Tecnologias digitais no processo de produção

Abril de 2018

JOÃO CARLOS MARCHESAN, Presidente Do Conselho De Administração Da Associação Brasileira Da Indústria De Máquinas E Equipamentos (Abimaq)

O entrevistado deste mês é João Carlos Marchesan, diretor da Marchesan Implementos e Máquinas Agrícolas TATU S.A., fundada em 1946, com quarenta e seis anos de experiência profissional. Desde junho de 2016, assumiu a presidência do Conselho de Administração da ABIMAQ. Depois de cinco anos seguidos de queda, o setor espera uma reversão do cenário de crise em 2018. A entidade considera essencial uma participação maior da indústria de transformação e dos serviços sofisticados no Produto Interno Bruto (PIB) para aumentar a produtividade e a competitividade do Brasil. Como contribuição aos candidatos à presidência da República, foi proposta uma agenda para a retomada do desenvolvimento nacional.

AGROANALYSIS: O CENÁRIO É DE SAÍDA DA CRISE?

JOÃO CARLOS MARCHESAN: Estamos em recessão no setor desde 2013. De lá pra cá, o faturamento já caiu pela metade, enquanto o número de empregos diminuiu em um quarto, para 290 mil. Tivemos queda no PIB da indústria no triênio 2014-2015-2016 e ficamos no zero em 2017. O quadro, agora, está mais brando. Analisamos isso a partir da ótica da retomada do crescimento nas empresas do setor para 2018. A perspectiva de uma recuperação da economia com um PIB até acima de 3,5% ajuda.

Encerramos um ciclo de cinco anos de queda consecutiva nas vendas. O agro contribuiu para aquecer a produção no setor de máquinas. Mas, nos demais segmentos, a produção está estagnada e com utilização de apenas 70% da capacidade instalada. A idade média das máquinas na indústria de transformação brasileira é de dezessete anos. Nos países desenvolvidos, o número é um terço disto. Temos uma longa caminhada a percorrer em termos de competitividade.

A AGRICULTURA CAMINHA PARA FRENTE?

JCM: Muito forte e competitiva, a agricultura brasileira enfrentou essa crise com supremacia. Tivemos uma colheita excepcional no setor de grãos na safra 2016/17 e vamos ter outra muito favorável nesta safra 2017/18. As reformas implementadas pelo Governo são sempre muito bem-vindas para a recuperação da economia nacional. Isso contribui para os investimentos e o desenvolvimento do mercado de máquinas e implementos agrícolas.

Esperamos, para 2018, um ritmo de comercialização alinhado à sazonalidade do mercado. É sempre bom quando os negócios entre as empresas e os agricultores ficam de acordo com o cenário planejado. Temos fontes de recursos no Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras (Moderfrota), no Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (PRONAMP) e no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Os esforços do Ministério da Agricultura e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) dão sustentação para isso.

CONTINUAREMOS A AVANÇAR NAS REFORMAS?

JCM: Trabalhamos sempre para descolar a economia da política. Estamos em ano eleitoral com eleições presidenciais, de governadores de estados e de parlamentares (deputados e senadores) para o Congresso Nacional. Devemos ter uma grande renovação entre os políticos eleitos. Participamos de debates intensos com autoridades do Executivo e do Legislativo. Pautamos a busca de um ambiente favorável à indústria nacional. Como entidade setorial, fizemos as lições de casa. Apoiamos as iniciativas que nos beneficiam e contestamos aquelas de que discordamos.

Tivemos progressos nas áreas fiscal e trabalhista, mas paramos na previdência, apesar de ser indispensável. Não podemos esquecer que o preço dos nossos produtos, por se tratar de tradables – negociáveis e comercializáveis –, é estabelecido pelo mercado internacional e pela taxa de câmbio. Quando esta última é mantida apreciada ao longo do tempo, as margens das empresas ficam mais reduzidas. Somos recorrentes nesse erro. Isso limita as exportações, a capacidade de investimento e a formação bruta de capital fixo ao atual nível de 15%, em lugar dos 25% do PIB, minimamente necessários.

AS INICIATIVAS SÃO EM DIVERSAS FRENTES?

JCM: Sugerimos emendas para as medidas provisórias (MPs) com impacto direto no setor de máquinas e equipamentos, como no caso da MP nº 783/17, relativa ao Programa Especial de Regularização Tributária (PERT) e ao Programa de Refinanciamento de Dívidas de Contribuintes (Refis). Ressaltamos que 75% das empresas associadas da ABIMAQ possuem alguma pendência junto ao fisco. Isso as impossibilita de retomar a sua plena produção.

Na MP nº 774/17, que trata da reoneração da folha, conseguimos reinserir as máquinas e os equipamentos na lista de setores beneficiados. Ingressamos na justiça com 45 mandados de segurança coletivos para garantir a opção feita pelas empresas associadas.

Levamos pleitos junto aos governos estaduais para a criação de mecanismos especiais para deferimento de ICMS aos fabricantes de máquinas e implementos agrícolas na aquisição de matérias-primas e componentes de produção. A reforma trabalhista também contemplou nossos pleitos no relatório e no texto final.

COMO FICA A REFORMA TRIBUTÁRIA?

JCM: Temos a reforma tributária, cujo relator é o deputado Luiz Carlos Hauly, em debate no Congresso Nacional. A proposta unifica os impostos, com a criação de dois tipos de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) para bens de consumo. Há uma simplificação do sistema atual, sem aumento da carga tributária e com isenção para setores como máquinas, equipamentos, remédios, alimentos e produtos de exportação. Isso trará vantagens competitivas para as empresas brasileiras, com redução da burocracia e isonomia tributária.

Insistimos na importância de avançarmos nas reformas estruturantes, dentre elas a previdenciária, a tributária e a política e o pacto federativo. Precisamos definir as competências e as atribuições de cada ente na União, nos estados e nos municípios, com as fontes de seus financiamentos. A abertura de novos mercados amplia as oportunidades. Isso explica boa parte dos bons resultados colhidos pelo agronegócio brasileiro, alçando-o cada vez mais como um setor de suma importância para a economia nacional.

E NA PARTE INTERNACIONAL?

JCM: Participamos das negociações do acordo de livre-comércio entre os blocos de países do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e da União Europeia. Trabalhamos na criação de regras de origem específicas para os nossos produtos. Propomos a desgravação da alíquota de importação mais rápida para insumos do que para máquinas. Trabalhamos para a formação de coalizões com outras entidades setoriais, sendo a mais recente delas no processo de antidumping de aços planos vindos da China e da Rússia.

Precisamos alertar as autoridades públicas para os prejuízos a serem causados ao mercado interno com o aumento do preço nas siderúrgicas, a pressão inflacionária e a elevação do preço ao consumidor final. A ABIMAQ é uma representação institucional significativa nos assuntos estratégicos ao País. Exigimos do poder público medidas para fortalecer os setores produtivos. Damos ênfase aos investimentos em infraestrutura. Queremos um Brasil para dar sustentação ao novo ciclo de desenvolvimento.

É OLHAR PARA FORA E PARA DENTRO DAS EMPRESAS?

JCM: Estamos em contato permanente com as diretorias dos principais bancos públicos e privados. Pleiteamos melhoria das linhas de financiamento e aperfeiçoamento dos critérios utilizados. Todas essas inciativas não nos eximem de olharmos para dentro das nossas empresas. Precisamos identificar o que podemos melhorar para vencermos a mais longa crise do País. Deixamos o recado de que, se falharmos em planejar, estamos planejando falhar. A visão sem ação é ilusão.

Com aperfeiçoamento nos métodos de gestão na engenharia de processo, reduziremos custos, minimizaremos desperdícios e aumentaremos a qualidade da produção. No ambiente de futuro do agronegócio, a indústria 4.0 faz-se cada vez mais presente. Drones, agricultura de precisão, nanotecnologia, máquinas autônomas e inteligência artificial são apenas alguns dos exemplos de inovações aplicadas na produção agrícola.

A AGRISHOW CELEBRA OS 25 ANOS?

JCM: Com a presença de 800 marcas do Brasil e do exterior, esperamos mais de 150 mil visitantes. Temos pequenos, médios e grandes produtores rurais, empresários e profissionais do setor, pesquisadores, acadêmicos, consultores e representantes de instituições governamentais e setoriais, além da imprensa. É um público qualificado e ávido em conhecer soluções para atender as demandas do dia a dia no campo. São inovações para trazer rentabilidade e competitividade ao produtor.

Neste ano, a Feira alcança um registro histórico, com a comemoração de 25 edições ininterruptas. Ela apresentou todas as tecnologias vistas no segmento ao longo desse um quarto de século, com antecipação das tendências e da vitrine de muitos lançamentos. O seu grande marco foi inaugurar no País o conceito de feira agrícola dinâmica, com demonstrações de máquinas, equipamentos e implementos, tecnologias atualmente apresentadas na Arena das Demonstrações de Campo.

Organizado pela Informa Exhibitions, integrante do Grupo Informa, o evento é uma iniciativa de importantes entidades do agronegócio no País: a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), a ABIMAQ, a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (FAESP) e a Sociedade Rural Brasileira (SRB).