Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Diário de bordo

Mais confiança no campo

Abril de 2018

ROBERTO RODRIGUES - Colunista

ROBERTO RODRIGUES, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (GV Agro)

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ELABORADO PELA Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o Índice de Confiança do Agronegócio (IC Agro) referente ao quarto trimestre de 2017 mostra um discreto otimismo do setor, especialmente entre os agricultores e os fabricantes de insumos. Já os pecuaristas encontram-se em posição semelhante à indústria de transformação, ligeiramente desconfiados.

Isso faz todo o sentido, refletindo uma realidade evidente no campo. Em 2017, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, depois de dois anos de queda acentuada, teve um aumento – ainda pequeno, mas significativo – de 1%. Mais de 70% deste aumento deveram-se à agropecuária, cujo crescimento foi de 13%! Tão impressionante salto deveu-se a fatores conhecidos: as condições do clima favoráveis na maior parte das regiões produtoras do País e a moderna tecnologia tropical aqui desenvolvida e aplicada. Isso trouxe um recorde de produção de grãos (237,6 milhões de toneladas), cujo volume compensou a queda global dos preços. No caso da pecuária, embora a célebre operação Carne Fraca não tenha derrubado a renda – porque as exportações acabaram fechando o ano sem queda em relação a 2016 –, permaneceu uma apreensão quanto aos mercados no futuro.

Quando o IC Agro for apurado para o primeiro trimestre de 2018, é bastante possível que essa diferença entre agricultores e pecuaristas se acentue, por duas boas razões. A primeira é que, apesar de o volume de grãos produzidos ser menor do que o do ano passado, o Valor Bruto da Produção (VBP) agrícola não deve cair muito, porque as safras da Argentina e do Uruguai vão quebrar mais de 15% por causa de uma seca terrível (que, aliás, afetou também duramente os agricultores do sul do Rio Grande do Sul). Com isso, a oferta de grãos será um pouco menor, e os preços já subiram. Sendo assim, a renda não vai cair e a agricultura de grãos deve continuar a ajudar o PIB nacional.

A outra razão é a operação Trapaça, que flagrou um desvio de conduta da empresa BRF e de laboratórios de avaliação de qualidade na questão sanitária de carnes de frango, e isso criou uma expectativa menos otimista para o setor de aves, potencializando a Carne Fraca. Alguns países importadores já estão cobrando explicações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que tem agido com o rigor e a agilidade necessários. E quem vai pagar o pato é o produtor rural de carnes, especialmente de aves.

Voltando ao IC Agro: quando os resultados são superiores a 100 pontos, há otimismo; se são inferiores a 100, há pessimismo. Pois bem: o IC Agro fechou o trimestre com o valor 100,3, raspando a base do equilíbrio.

Mas, o agropecuarista teve um índice maior, de 101,8 pontos, o que já foi 8,6 pontos a mais do que no trimestre anterior. E o do produtor agrícola subiu bem mais, chegando a 104,0 pontos, 11,1 superior ao índice do terceiro trimestre. Já o pecuarista, pelas razões apontadas, ficou com 95,1 pontos, um certo pessimismo.

A indústria de insumos teve um índice de 105,2 pontos, bastante positivo, refletindo o comportamento do agricultor ao longo do ano: deixou as compras para o segundo semestre, animando o setor. Mas, na contramão, a indústria depois da porteira fechou o ano com 98,6 pontos, talvez porque as margens de trading tenham sido muito estreitas. Como diz a música sertaneja, “tá ruim, mas tá bom”.