Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Reflexão

O rosto da verdade

Abril de 2018

LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO - Colunista

LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO, Presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG)

Outros textos do colunista

Duas verdades nunca podem se contradizer.

Galileu Galilei

Os dados sobre a realidade brasileira do uso do solo, trabalhados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e confirmados por estudo da Agência Espacial Norte-Americana (NASA), são de tirar o fôlego do tataravô dos europeus ou dos norte-americanos que desmataram suas regiões. O Brasil é verde na sua bandeira e no seu território, e os guardiães de tudo isso são os agricultores. As áreas preservadas por eles são o testemunho dessa relação preciosa com o maior bem do País: os seus recursos naturais!

O Brasil tem, de fato, potencial para ser um dos líderes da economia verde no Planeta. Essa grandeza geopolítica vem incomodando muito. Um olhar ao passado relativamente recente indica uma pressão internacional coordenada sem base técnico-científica, mas sim configurando uma estratégia de comunicação, para rotular o Brasil e o agronegócio com símbolos negativos a respeito do desmatamento e da sua forma de produzir.

O mundo segue preocupado com a alimentação. Por um lado, as memórias da II Guerra Mundial, com os nazistas cercando o abastecimento de alimentos, valorizaram o tema da segurança alimentar, que ganhou relevância. Por outro lado, estimularam-se fortemente os processos de mecanização e da produtividade agrícola, com o crescimento dos esforços em aprimoramento dos recursos humanos e investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D).

A Revolução Verde (décadas de 1950 a 1970) e a transformação da agricultura foram uma resposta essencial ao problema. Muito disso, no entanto, veio com a simples adaptação da tecnologia desenvolvida no mundo temperado.

No século XX, veio a evolução tecnológica no mundo tropical, com destaque para o Brasil. Com recordes sobre recordes, o País expandiu enormemente a oferta de alimentos e de energia renovável, ao ponto de se tornar importantíssimo exportador destes produtos, e tudo isso preservando um perfil verde indiscutível: com 7,6% da sua área com lavouras e a pastagens em evolução técnica extraordinária e cedendo área para a agricultura; e 66% do seu território preservados com vegetação nativa.

Em termos comparativos, citando a Embrapa, os europeus desmataram e exploraram intensamente o seu território. A Europa, sem a Rússia, detinha mais de 7% das florestas originais do Planeta e, hoje, tem apenas 0,1%. A maior parte dos países utiliza entre 20% a 30% do seu território para agricultura. Os países da União Europeia usam entre 45% a 65%. Os EUA, 18,3%; a China, 17,7%; e a Índia, 60,5%.

O Brasil é, de fato, diferenciado. Fez um Código Florestal moderno e ousado, que o qualifica para um futuro muito diverso do presente dos antigos países que possuem pouca vegetação nativa. Preservar, no Brasil, está na lei!

Nesse ambiente de dados reais, a velha e batida crítica ao Brasil perde força. No entanto, os interesses contrariados externos, somados à ideologia interna, já estão engendrando um novo ataque: o bioma do Cerrado no Brasil.

Será fundamental um esforço da Academia, da Embrapa, dos governos estaduais e dos produtores rurais no sentido de qualificar e quantificar os tipos de Cerrado brasileiro, seus usos e impactos da tecnologia nos aspectos físico-químicos dos solos no bioma. Será fundamental a participação ativa das entidades de classe nacionais e estaduais e das várias cadeias produtivas na defesa da verdade.

Nada desviará o Brasil dessa sua grandeza. Afinal, como disse Guimarães Rosa, “o que tem de ser tem muita força, tem uma força enorme”.