Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

ANPII

Evolução tecnológica da indústria de inoculantes

Abril de 2018

LEMOS E ouvimos sobre a notável evolução das tecnologias nas mais diversas atividades. Na agricultura, a robótica vem sendo introduzida com velocidade. Quando andamos pelas lavouras, onde antes havia homens em máquinas, hoje vemos drones transmitindo dados para serem analisados.

Os inoculantes, com a Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN), representam uma evolução tecnológica significativa. Esse insumo acompanhou o crescimento das tecnologias utilizadas na soja e em outras leguminosas, passando, também, a atingir as gramíneas nos primeiros dez anos deste século.

PASSADO

Os inoculantes para leguminosas tiveram a sua primeira produção comercial em 1956, pela empresa Leivas Leite, de Pelotas, no estado do Rio Grande do Sul, sob a orientação técnica do Dr. Jardim Freire, então na Secretaria de Agricultura estadual. Sem processo de seleção no País, as cepas vinham de outros países. Havia uma recomendação para uma qualidade mínima dos inoculantes: 100 milhões de bactérias por grama de produto na fabricação e 10 milhões no vencimento.

Este padrão vigorou por muitos anos, quando não se exigiam condições mínimas para produzir inoculantes. Com a primeira legislação, em 1980, foram introduzidas diversas obrigatoriedades com relação a equipamentos e procedimentos para assegurar um produto em conformidade com a necessidade da época.

A partir daí, a indústria de inoculantes passou a desenvolver programas de qualidade, com a incorporação de biotecnologia e bioprocessos. Nas últimas três décadas, a produtividade média nacional da soja praticamente dobrou, de 1.500 para 3.000 quilos por hectare (kg/ha), com colheitas superiores a 5.000 kg/ha. Esse processo implicou o aumento de aporte de nitrogênio, enquanto a indústria de fertilizantes oferecia produtos mais qualificados.

A introdução da turfa esterilizada na produção de inoculantes permitiu aumentos consideráveis na concentração de bactérias. Na década de 1990, a sua concentração deu um salto de dez vezes, passando de 100 milhões para 1 bilhão por grama. E, no início dos anos 2000, este patamar chegou a 5 bilhões por grama.

Outro fator importante para a disseminação do uso de inoculantes foi o desenvolvimento do inoculante líquido pelas empresas nacionais. Esta formulação veio oferecer produtos mais fáceis de uso pela agricultura.

Isso tudo foi possível graças a dois fatores

- O nível do pessoal técnico envolvido na pesquisa e na difusão da tecnologia, levando ao campo informações de como tirar o maior proveito do produto e atender as necessidades do agricultor;

- A substituição dos antigos e dos pequenos fermentadores, com risco de contaminação e intervenções manuais no processo. Isso permitiu o processamento de volumes maiores, com a utilização de filtros absolutos e câmaras de fluxo laminar para a transferência de bactérias, de modo a preencher os requisitos para uma produção microbiológica de alto nível.

PRESENTE

No Brasil, o inoculante firmou-se como um produto fundamental para a produção agrícola, em especial na cultura de soja. Praticamente todos os seus 35 milhões de hectares utilizam este produto biológico como única fonte de fornecimento de nitrogênio, o nutriente exigido em maior quantidade por esta cultura. Assim, os agricultores abandonaram o uso de fertilizante nitrogenado em suas lavouras de soja.

Esta mudança só foi possível pela produção de um inoculante de alta qualidade, com a utilização dos conhecimentos gerados pela pesquisa, transformando-o em insumo valioso para o agronegócio brasileiro.

Outro marco foi o lançamento do inoculante para gramíneas, em 2009, com o desenvolvimento das estirpes e da tecnologia de produção pelos departamentos de pesquisa e desenvolvimento das empresas. Hoje, já são vendidas mais de 4 milhões de doses de inoculantes para aplicação nas culturas de milho, trigo, arroz e braquiária.

Atualmente, de acordo com o conceito moderno de inoculação com um conjunto de bactérias, o produto está sendo utilizado junto com o inoculante de soja e feijão, nas respectivas culturas. Como esta mistura proporciona aumentos significativos na produtividade, a sua adoção cresce rápido entre os agricultores.

As empresas brasileiras e as estrangeiras filiadas à ANPII contam com recursos humanos qualificados. Em um levantamento feito em cinco empresas filiadas, constatou-se um quadro de pessoal multidisciplinar, com agrônomos, biólogos e químicos. Existem, ainda, 28 projetos de pesquisa e 27 testes de produtos em conjunto com universidades e institutos de pesquisa. Isso demonstra a pujança do setor para se manter em constante evolução tecnológica.

FUTURO

Com a tendência mundial de maior uso de produtos biológicos na agricultura, a ANPII prevê um futuro promissor para esta atividade. As pesquisas apontam para grandes novidades no campo do consórcio de microrganismos, com o uso simultâneo de diversas bactérias com efeito sinérgico entre si. O agro brasileiro muito se beneficiará dessas inovações, com o uso de produtos rentáveis e sintonizados com a sustentabilidade.