Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

EMBRAPA

Quarenta e cinco anos

Abril de 2018

UMA ÚNICA pesquisa, um bioinsumo formulado com bactérias que fixam o nitrogênio do ar e que, hoje, alcança 33,9 milhões de hectares de soja, permitiu aos agricultores e ao País economizarem R$ 42,3 bilhões – cerca de quatorze vezes o orçamento anual da Embrapa, apenas na última safra. E, ainda, os agricultores não precisaram ter o trabalho de aplicar fertilizante nitrogenado.

Esse é apenas um dos exemplos do resultado da Ciência aplicada à agricultura brasileira que tornaram o País um dos maiores produtores mundiais de alimentos. Ao completar 45 anos, a Embrapa está comprometida com a inovação, especialmente com a oferta de alimentos saudáveis e a conservação da base de recursos naturais do Planeta. Os nossos profissionais desenvolvem e aplicam conhecimentos e técnicas modernas para melhorar a produtividade e a nutrição, em alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Além dos benefícios para a população, o País também ganha, tornando-se cada vez mais competitivo no mercado global.

O quadro da agricultura brasileira é bem diferente de quatro décadas atrás, quando o País era conhecido por produzir açúcar e café, mas importava praticamente todo o resto, até alimentos básicos como arroz, leite ou feijão. O investimento em pesquisa agropecuária mudou essa lógica e o País.

Na década de 1970, quando foi fundada a Embrapa, decidiu-se por realizar investimentos sólidos em inovação para a área agropecuária, com base em formação de recursos humanos, pesquisa em rede e foco nos problemas dos agricultores. O objetivo era fazer com que o Brasil pudesse alcançar a sua segurança alimentar. A Embrapa, a rede de universidades, a assistência técnica, os órgãos estaduais de pesquisa, muitas parcerias e o espírito empreendedor dos agricultores superaram o objetivo inicial. O valor da cesta básica foi diminuído em 50%, e, a cada ano, a presença do Brasil amplia-se entre os maiores exportadores de alimentos do globo, tornando o País líder em inovação agropecuária no mundo tropical.

Hoje, a agropecuária brasileira é uma das mais eficientes e sustentáveis do Planeta; incorporou aos sistemas produtivos uma larga área de terras degradadas dos Cerrados, região que, hoje, é responsável por quase metade da produção nacional de grãos. A oferta de carnes bovina e suína foi quadruplicada e a de frango, ampliada em 22 vezes. Nos últimos 46 anos, o Brasil aumentou a produção de grãos em 555,6%, sem ampliar a área plantada em grandes proporções (163,43%). As crises de abastecimento de produtos básicos, como feijão, arroz e frango, ficaram como lembranças das décadas de 1970 e 1980. Se, no passado, o brasileiro só consumia determinadas frutas e hortaliças (como uva e cenoura) em meses específicos; hoje, elas estão presentes nas prateleiras o ano inteiro. O Semiárido nordestino, a partir da Ciência, exporta, atualmente, uvas, goiaba, manga e outras frutas tropicais, algo inimaginável há trinta anos.

SUBSÍDIOS A POLÍTICAS PÚBLICAS

A contribuição da pesquisa agropecuária abrange: novas sementes, sistemas de produção mais eficientes, controle de pragas, equipamentos, softwares, melhoramento genético ou informações para o agricultor tomar a melhor decisão possível.Além disso, o tratamento de temas complexos como propriedade intelectual, transgenia e Código Florestal é beneficiado pela contribuição qualificada da pesquisa. Um exemplo pouco percebido desta contribuição é o suporte tecnológico para o Plano Agricultura de Baixo Carbono (Plano ABC), uma linha de crédito para o produtor rural desenvolver a sua atividade com menos impacto ambiental e, assim, reduzir emissões de carbono. É uma medida do Brasil para atender o compromisso firmado na Conferência das Partes das Nações Unidas (COP-15), de 2009, e que também o ajudará a cumprir o Acordo de Paris.

Outro caso, certamente um dos principais conhecimentos gerados pela Ciência brasileira, é o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), que, na prática, fez desaparecerem do noticiário as fraudes com seguro agrícola. Trata-se de um mapeamento das áreas de produção que indica as melhores datas de plantio de mais de quarenta culturas para cada município brasileiro, reduzindo o risco de perdas por fatores climáticos. Tal zoneamento é, hoje, base para o seguro agrícola brasileiro e permite a expansão segura das lavouras pelo território nacional.

FUTURO

Estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que, até 2050, a produção agrícola precisará crescer globalmente 70% – e quase 100% nos países em desenvolvimento – para alimentar a crescente população, excluindo-se a demanda para biocombustíveis. Portanto, os desafios para a Embrapa e os seus parceiros são enormes e exigem um olhar atento para o futuro. Além das áreas tradicionais, a Empresa tem investido fortemente em tecnologias de ponta, como sequenciamento e edição de genomas de plantas e animais, clonagem, nanotecnologia e agricultura digital.

Em 2017, a Embrapa ofereceu ao País um lucro social de R$ 37,18 bilhões, apurado com base nos impactos econômicos de uma amostra de 113 tecnologias e 200 cultivares desenvolvidas pela Empresa e por seus parceiros – em especial as organizações estaduais de pesquisa. Isso significa que, a cada R$ 1 investido na Empresa, o retorno social foi de R$ 11,06. Ainda assim, a visão é de que é preciso mudar para se adequar às exigências de um processo permanente de transformações. Para dar agilidade e mais atenção à atividade-fim e obter maior proximidade com o mercado de inovações tecnológicas e os produtores, iniciamos, em 2017, a maior mudança da nossa história, reduzindo o número de unidades administrativas e alterando o modelo de gestão. Neste ano, os ajustes ocorrerão nas unidades de pesquisa e inovação, e há um Grupo de Trabalho liderando as discussões sobre as mudanças previstas.

Capacidade de antecipar desafios, criar soluções e influenciar é parte da missão da Embrapa. Será a base de motivação para as melhorias que estamos promovendo para nos alinharmos cada vez mais às agendas relevantes do País e perseguirmos metas de impacto que qualifiquem as nossas entregas para a sociedade.