Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Energia

Etanol de milho tem futuro no Brasil

Abril de 2018

CERCA DE 85% a 90% do custo do etanol de milho são advindos do preço do grão. Assim, a questão da competitividade do etanol de milho, em relação ao etanol de cana e à própria gasolina automotiva, depende do preço do milho.

Quanto ao fornecimento da matéria-prima, basta o produtor comprar o milho no mercado, ou seja, não precisa obrigatoriamente preocupar-se em produzir ou em criar uma rede de fornecedores em torno da usina. Há, ainda, a vantagem de permitir que seja feito o hedge no mercado de futuros, garantindo previamente o preço da matéria-prima, o que ainda não é possível com a cana-de-açúcar.

Nos últimos quatro anos, tem sido vertiginosa a expansão da produção de etanol de milho no Brasil, e projeções indicam que, nos próximos anos, este crescimento vai se manter acelerado. A expansão está relacionada ao crescimento da produção de milho, que já atingiu 98,00 milhões de toneladas no ciclo 2016/17 e, de acordo com o segundo levantamento de safra de grãos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), deve atingir 88,00 milhões de toneladas na safra 2017/18, sendo 24,74 milhões de toneladas de milho 1ª safra e 63,26 milhões de toneladas de milho 2ª safra.

A contar pelas projeções da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (ABRAMILHO), estima-se que o Brasil tem condições de expandir a produção de milho para cerca de 200 milhões de toneladas por ano, no prazo de aproximadamente uma década. Se a produção continuar crescendo neste ritmo, vão se manter os desafios aos sistemas de armazenamento e logística integrada, e, portanto, os preços devem se manter competitivos nas origens.

O ritmo de crescimento da produção de milho é o que determina o seu preço no mercado interno e, portanto, a sua atratividade para ser transformado em etanol. Há que se levar em conta, também, que as exportações de milho têm flutuado entre 20 milhões e 30 milhões de toneladas, e as limitações de logística têm resultado em preços do grão bastante atrativos em regiões próximas aos polos de cultivo.

Entre as safras 2014/15 e 2016/17, a produção de etanol de milho saltou de 26.483 para 234.147 metros cúbicos (m3). Na safra atual de 2017/18, a produção é estimada pela DATAGRO em 525.000 m3, sendo 440.000 m3 de etanol hidratado e 85.000 m3 de etanol anidro.E qual é a relevância de uma capacidade industrial de 2.966 mil m3 de etanol de milho projetada até 2020?O processamento do milho para etanol agrega valor ao grão e gera um coproduto de elevado valor proteico (distillers dried grains and solubles – DDGS), usado na composição de ração para bovinos, suínos e aves, reduzindo a pressão de logística no transporte de grãos. É uma atividade que significa desenvolvimento para as regiões onde se instala, capitalizando a agricultura e aumentando, assim, a capacidade de produção de alimento.

Goiás é o segundo maior produtor de etanol de cana do País, com uma produção de cerca de 4.500 mil m3/ano, o que ultrapassa em muito o consumo do estado. Em 2017, Goiás consumiu 1.022 mil m3 de etanol hidratado e 1.558 mil m3 de gasolina C, contendo 27% de etanol anidro. No mesmo ano, Mato Grosso produziu cerca de 1.220 mil m3 de etanol de cana, para um consumo de 674.400 m3 de etanol hidratado e 623.800 m3 de gasolina C. Assim, a produção de etanol de milho deverá ser transferida para outros estados e regiões, o que vai mudar o cenário de abastecimento e de movimentação de carga líquida. É possível antever que o transporte de diesel para o Centro-Oeste utilizará o frete de retorno para transportar etanol.

O etanol de milho deve crescer no Brasil, trazendo mais desenvolvimento e independência energéticos.

MODELO DE PRODUÇÃO

Há dois modelos de produção de etanol de milho atualmente no Brasil: a produção em plantas “stand-alone", que só processam milho, e plantas integradas com usinas de cana-de-açúcar. A primeira usa uma fonte externa de energia, geralmente cavaco de madeira. A segunda aproveita a energia gerada a partir de resíduos de cana, bagaço e palha, com sinergia no uso de energia e de diversos equipamentos industriais já instalados na usina de cana.

O potencial é significativo nos dois modelos industriais. A integração da produção de etanol de milho com a de cana pode resultar numa equação interessante para os atuais produtores de etanol de cana, com o aproveitamento das instalações industriais no período de entressafra.