Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Horacio Sánchez Caballero

Formação do grupo de países do Cone Sul

Maio de 2017

HORACIO SÁNCHEZ CABALLERO, Coordenador do Grupo de Países pProdutores do Sul (GPS)

Com Licenciatura em Psicologia, tendo se graduado na Universidad del Salvador, Horacio Sánchez Caballero cursou, ainda, Direção Geral e Direção Comercial na Universidade Católica da Argentina. De 1977 a 1996, foi diretor da empresa argentina ASTRA, até sua venda à Companhia Repsol. Atualmente, participa como membro e conselheiro do Conselho Argentino de Relações Internacionais (CARI) e se dedica a agronegócios e negócios imobiliários. É coordenador do Grupo de Países Produtores do Sul (GPS) e membro das Bolsas de Cereais e de Comércio de Buenos Aires.

Em 2012, entidades privadas de quatro nações – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – criaram o projeto GPS. Trata-se de um conjunto de especialistas e empresários comprometidos em contribuir com a construção de um polo sul-americano capaz de responder às novas demandas alimentícias. Tudo de forma sustentável, com geração de riqueza, emprego e capital social na região.

AGROANALYSIS: QUAIS FORAM AS RAÍZES DA FORMAÇÃO DO GPS?

HORACIO SÁNCHEZ CABALLERO: Desde meados da década passada, o mundo assiste a um incremento nos preços dos alimentos que não se via há muito tempo. O crescimento populacional, as melhorias na qualidade de vida dos países em desenvolvimento e a mudança climática geraram uma interrogação: o mundo pode gerar alimentos para todos os seus habitantes com preços razoáveis e sem esgotar seus recursos naturais? E, se assim for, qual é o papel dos países sul-americanos neste desafio?

A América do Sul possui um papel crucial para abastecer a crescente demanda mundial de alimentos. Mas, o potencial produtivo da região deverá superar vários desafios para frutificar. A existência, hoje, de 7 bilhões de habitantes para alimentar representa um verdadeiro desafio para a segurança alimentar. E este número irá aumentar. Desnutrição, conflitos internos e externos, práticas produtivas antiecológicas e um uso irracional dos recursos naturais são algumas das potenciais consequências.

QUANDO COMEÇOU A MOBILIZAÇÃO DE FATO?

HSC: Após dois anos de gestação e construção de consenso, o GPS elaborou o seu primeiro trabalho, em 2013: “Segurança alimentar global e recursos naturais agrícolas: papel e visão da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai”. Pensamos a produção de um documento que fosse o ponto de partida para trabalhar em conjunto sobre temas prioritários não só para a região, mas para o mundo inteiro.

Partimos de duas premissas. A primeira era de que o trabalho em conjunto daria aos quatro países envolvidos, do ponto de vista geopolítico, um maior poder de negociação, em vez do esforço isolado. Já a segunda era de que, sem dúvida, haveria melhores perspectivas de consolidação da região se compartilhássemos um plano comum de desenvolvimento do setor alimentício em seu conjunto.

NA SUA CRIAÇÃO, PELO TRATADO DE ASSUNÇÃO, EM 1991, O MERCADO COMUM DO SUL (MERCOSUL) ERA VISTO COMO UMA ALIANÇA DE IGUAIS?

HSC: Temos de considerar que, hoje, vivemos outro momento. A América Latina possui uma importante quantidade de terra cultivável para se incorporar à agropecuária, além de ter alta disponibilidade de água doce por pessoa. A produção agrícola per capita na região cresceu 80% a mais do que a média mundial durante a primeira década deste século, três vezes e meia acima do que a soma dos Estados Unidos e do Canadá. Supera muitos países europeus e outros jogadores de peso, como Austrália e Nova Zelândia.

O conjunto de países do MERCOSUL original – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – é o principal exportador comercial líquido de alimentos no âmbito mundial, com 32%. E isso não se deve apenas aos seus recursos naturais, mas também às suas capacidades de produção, gerenciamento e adoção de tecnologia. Trata-se de uma união complementar. Cada país aposta na região como grande exportador de alimentos.

EXISTEM PONTOS A SEREM ACERTADOS?

HSC: Precisamos trabalhar com uma visão estratégica clara de que estaremos prontos quando tivermos uma melhor definição consensual em termos de regras comerciais, sanidade, infraestrutura e comércio interno regional. Vivemos um momento oportuno para avaliar essas questões, principalmente pela fase atual de maior alinhamento existente entre Argentina e Brasil no que se refere a políticas de abertura de mercado e de capitais externos.

Outro aspecto são as oportunidades para a região firmar-se como plataforma supridora de alimentos global. Parte dos países desenvolvidos toma o rumo de políticas de fechamento e proteção dos seus mercados. Temos dois grandes exemplos recentes: o decreto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para sair do Acordo de Associação Transpacífico (TPP, na sigla em inglês); e a aprovação do plebiscito realizado na Inglaterra para o país desligar-se da União Europeia (o Brexit).

POR QUE A LIDERANÇA DEVE DAR-SE PELA INCIATIVA PRIVADA?

HSC: Precisamos reconhecer desde já a diferença básica existente entre estas duas figuras institucionais: ao governo cumpre o papel de discutir, analisar e fixar as condições adequadas do jogo; e à iniciativa privada cabe fundamentalmente gerar riqueza, criar trabalho e promover bem-estar para a sociedade.

Para esse mecanismo funcionar de forma correta, o Estado deve entender a proposta do setor privado e mirar o longo prazo e o setor privado deve colaborar com o Governo para que a legislação seja justa e aplicada com rigor. Nada correrá bem se a situação estiver incerta dos pontos de vista político, econômico e social. Outro lado a se desenvolver são os laços internacionais com o Banco Mundial e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

O GPS VAI ALÉM DA PRODUÇÃO DE ALIMENTOS?

HSC: Com conhecimento e aplicação de tecnologia, os produtores transformaram os recursos naturais em bens necessários para o desenvolvimento humano. Na primeira fase, a Biotecnologia focou em melhorar as produtividades dos cultivos. A seguinte onda melhorou a composição nutritiva dos alimentos, e os medicamentos biológicos demonstraram eficácia frente a doenças como o câncer e a artrite.

Os biocombustíveis já são uma realidade para o desenvolvimento econômico regional no fornecimento de energia, junto com a contribuição das matérias-primas renováveis de uso industrial (químicos, polímeros etc.), para gerar um planeta mais sustentável num sentido amplo.

COMO OLHAR O PAPEL DA ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO (OMC)?

HSC: Quando terminou a Segunda Grande Guerra, os países vencedores criaram uma série de instituições para promover o desenvolvimento econômico e social. Neste bojo, surgiu o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), a atual OMC. O resultado foi positivo, e o comércio mundial cresceu. Ao mesmo tempo, países como os Tigres Asiáticos e a China despontaram como potências econômicas. Devemos, então, olhar para o papel da OMC, nesse novo ordenamento das relações comerciais, pela sua capacidade de defender pautas globais.

EXISTEM DESAFIOS INTERNOS?

HSC: Precisaremos desenvolver o capital humano. A integração e a projeção internacional dos países do MERCOSUL envolvem três aspectos. O primeiro é a articulação entre as instituições para se posicionar em assuntos relacionados à agroindústria com uma visão estratégica do mundo e da região. O segundo relaciona-se à geração de conteúdos com fornecimento de informação e análise em temas de interesse para um diálogo público-privado em cada um dos países participantes e entre si. O terceiro é a divulgação das informações e das ideias por meio da promoção, da organização e da participação nos foros nacionais, regionais e internacionais, de modo a contribuir com o posicionamento dos quatro países da região.

QUAIS SÃO OS PRÓXIMOS PASSOS?

HSC: O GPS não busca colaborar com a panaceia para o desenvolvimento regional. Diz um provérbio chinês: “um caminho de mil milhas começa sempre com um pequeno passo”. Dar este primeiro passo, rumo a uma meta que talvez as gerações futuras atinjam, é uma das motivações dessa iniciativa. E deve-se aprender a caminhar em conjunto – uma tarefa que não é simples em uma região onde, durante décadas, predominaram rivalidades comerciais, falta de diálogo e fraca coordenação. Porém, devemos trabalhar já para que possamos ocupar o lugar correspondente aos nossos países no que refere a segurança alimentar mundial; e demorar seria muito negativo.

Temos, ainda, dois eventos a serem realizados em Buenos Aires, na Argentina. No final deste ano, teremos a concretização da Conferência Ministerial da OMC e, em meados de 2018, a Reunião do G-20. Estes encontros geram oportunidades para os países-membros do MERCOSUL apresentarem propostas. Estamos trabalhando juntos para agregar nesse sentido. Estamos com uma pedra brilhante em nossa mão, mas que precisa ser polida.