Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Diário de bordo

Outro papel global

Maio de 2017

ROBERTO RODRIGUES - Colunista

ROBERTO RODRIGUES, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (GV Agro)

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A CRISE da carne, embora artificializada em parte por causa da forma como foi trombeteada, causou grande estrago para o País, especialmente quanto à avaliação internacional dos nossos mecanismos de controle sanitário, mas também gerou enormes prejuízos às cadeias produtivas de gado bovino, aves e suínos, além dos cereais que compõem as rações para estes animais todos. Os preços caíram, a exportação arrefeceu, e, por isso, a produção diminuiu, os empregos sumiram, a renda despencou, exatamente em um ano de safras agrícolas recordes e em que se esperava ampliação dos mercados mundiais para a boa e sustentável carne brasileira.

Com rapidez e eficiência, o Governo e as entidades de representação desses setores mobilizaram-se para reduzir o prejuízo, cujo tamanho ainda está para ser calculado, mas que ficará em grande parte nas costas do produtor. Tudo muito ruim, especialmente porque os países que conosco concorrem no comércio mundial de carnes vivem à espreita de algum “escorregão” que lhes oportunize questionar e/ou reduzir nossa competitividade reconhecida.

Mas, esse embaraço comercial abre espaço para uma questão muito mais ampla.

Trata-se de visitar discussões sobre a própria ordem mundial como está hoje estabelecida e, com alguma frequência, contestada. Suas regras e instituições estão em cheque. Organizações como a Organização da Nações Unidas (ONU), a Organização Mundial do Comércio (OMC), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras são questionadas. A ONU, por exemplo, deve garantir a paz universal; claramente, não tem conseguido. A OMC, comandada pelo competente embaixador Roberto Azevêdo, assiste ao crescimento do número de acordos bilaterais fora de suas normas.

Cidadãos do mundo todo contestam a própria globalização, questionando quem ganhou e quem perdeu com ela, com a impressão generalizada de que foram beneficiadas as grandes empresas em detrimento dos cidadãos comuns.

Até mesmo a democracia liberal tem sido criticada, bem como suas estruturas partidárias e formas de governança. Há um crescente desejo de maior participação da sociedade nesta governança, seja no interior dos países, seja nos grandes blocos econômicos, e o Brexit é exemplo disso. Tudo muito confuso, gerando insegurança e incerteza. E a ausência de líderes capazes de ditar rumos abre espaço para terrorismo, tráfico de drogas e de armas, migrações de alto risco e radicalismo de toda ordem. A própria comunicação via redes sociais muda cenários muito rapidamente, inclusive criando e destruindo ídolos e mitos, muitas vezes com mentiras assombrosas.

E é nesse cenário nebuloso que está inserida a selvagem disputa por mercados, em que concorrentes se atacam mutuamente em busca de novos clientes. E “acidentes” como o da operação Carne Fraca são a “delícia” dos competidores que não competem em condições normais.

Nesse desolador palco global, o Brasil pode ganhar uma nova posição de destaque, o que também servirá para reduzir o efeito de crises semiartificiais como essa. E essa posição será alcançada a partir de uma constatação óbvia: independentemente de crises de qualquer tipo, as pessoas precisam comer. E nenhum país do mundo tem as condições que nós temos de aumentar sustentavelmente a produção rural. Basta montar a estratégia para tanto, sobretudo eliminando riscos desnecessários, e estamos caminhando nessa direção.