Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Mercado internacional

Exportação de milho e soja

Maio de 2018

AS COLHEITAS exuberantes obtidas pelo Brasil nos últimos anos colocam o País em condições de disputar, palmo a palmo, grão a grão, com os Estados Unidos a posição de principal fornecedor mundial de soja no mercado internacional.

A mudança de patamar nos índices brasileiros de produtividade na sojicultora faz parte de uma realidade sem volta. Para a safra 2017/18 (de julho de 2017 a junho de 2018), devemos novamente vivenciar alta média de produtividade nacional, acima de 56 sacos por hectare. Este nível corresponde a um novo recorde para esse indicador. Em determinadas regiões, teremos propriedades com produtividade acima de 100 sacos por hectare.

Diversos fatores contribuem para esse resultado. Temos o desenvolvimento de novas variedades de sementes, com tetos maiores de produtividade e mais adaptadas às condições edafoclimáticas de cada região, além dos investimentos realizados pelo setor produtivo em preparação e manejo do solo e melhores práticas agrícolas. Tudo isso ajuda a extrair o maior potencial das sementes utilizadas no plantio.

MELHORA O CENÁRIO 2017/18

Todas essas condições favoráveis devem possibilitar ao País alcançar a marca inusitada de 118 milhões de toneladas de soja colhidos na safra 2017/18, segundo estimativas de algumas consultorias especializadas. A evolução da colheita deverá estar praticamente finalizada até meados deste mês.

Mercado internacional

Somadas à excelente produção nacional, as condições mercadológicas colocam a soja brasileira no centro do mercado internacional da commodity. Houve perdas significativas na produção da cultura na Argentina, decorrentes de problemas climáticos com longa estiagem, principalmente a partir de fevereiro. Na região conhecida como “pampa úmido", uma das mais férteis no país, a drástica seca foi a pior dos últimos 44 anos. Nesse contexto, os preços internacionais da oleaginosa ganharam força.

No início da safra 2017/18, quando as primeiras sementes de variedades precoces de soja foram lançadas no campo, as perspectivas de boas rendas, como a auferida na temporada passada, eram vistas como remotas no Brasil. As especulações iam mais na direção de dificuldades para os produtores fecharem as suas contas. Os Estados Unidos desovavam uma colheita recorde no mercado internacional no segundo semestre de 2017, e a previsão era de chegar uma outra grande produção à América do Sul. A quebra da safra argentina reverte esse quadro de excedente e, de certa forma, dá mais velocidade à comercialização da produção nacional.

ESCOAMENTO DE SOJA E MILHO

De acordo com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), em 2017, quando em comparação a 2016, houve um grande aumento de transporte de soja e milho pelos portos do Arco Norte do Brasil. Esta é a nova via de escoamento de grãos do País. Nesse período, a quantidade transportada pelos dois produtos cresceu 73,90% nos portos do Norte e 34,4% nos demais portos. No total, os embarques pelos portos tiveram um crescimento total de 47,7%.

Mercado internacional

O Arco Norte é conformado por seis portos no Rio Amazonas e em afluentes exportadores de grãos através do Oceano Atlântico, sendo os principais: o de Porto Velho (Rondônia), o de Itacoatiara (Amazonas), o de Miritituba (Pará), o de Santarém (Pará), o de Vila do Conde (Pará), o de Macapá (Amapá) e o do Itaqui (Maranhão). A maioria das operações destes portos está sendo expandida em função do aumento do volume de grãos sendo transportado de regiões centrais do País – como o norte de Mato Grosso e os estados de Goiás e do Tocantins – e, também, do Nordeste.

Um estudo desenvolvido pelo Grupo de Inteligência Territorial Estratégica (GITE), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mostra que as obras do Arco Norte devem ampliar o escoamento da produção de grãos no Arco Norte e no Brasil como um todo. A pavimentação da rodovia BR-163 e a construção da ferrovia Ferrogrão, que conectam Mato Grosso com o Amazonas, são consideradas como fundamentais para garantir a competitividade e a expansão da produção no Brasil nos próximos dez anos.

IMPACTO DA GUERRA COMERCIAL ENTRE ESTADOS UNIDOS E CHINA

Na temporada 2018/19, a China deverá importar 100 milhões de toneladas de soja em grão. Isso deverá estabelecer um novo recorde. No ciclo 2017/18, foram 97 milhões, sendo 52 milhões do Brasil, 30 milhões dos Estados Unidos e o restante dos demais países. As estimativas foram feitas pelo adido do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) com sede em Pequim. Em 2016/17, as compras do país asiático totalizaram 93,5 milhões de toneladas. Em resposta às tarifas aplicadas contra os seus produtos, os chineses impuseram uma taxa de 25% na soja embarcada pelos americanos.

Mercado internacional

A disputa comercial entre estes dois países afeta os preços internacionais da soja. A perspectiva de menores exportações do produto americano para o mercado chinês pressiona para baixo as cotações. Isso deu mais competitividade ao produto brasileiro, que poderá potencialmente cobrir boa parte do volume ocupado antes pelos Estados Unidos. O resultado foi um aumento dos prêmios pagos no Brasil.

E isso vem refletindo-se, também, nos preços da soja no mercado brasileiro, com elevação dos prêmios pagos no Brasil em virtude de uma maior demanda chinesa pela nossa produção. Às exportações nacionais cabe superar as enormes dificuldades logísticas, no transporte interno, na capacidade de armazenamento e no embarque nos portos.

As estimativas iniciais apontavam para este ano uma exportação próxima de 70 milhões de toneladas de soja. Quando se leva em conta o clima hostil das negociações entre os Estados Unidos e a China, os números poderão ter um incremento superior a 5%. Ainda parece haver muita indefinição sobre os desdobramentos desta disputa.