Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Diário de bordo

Mas, e os pequenos?

Junho de 2017

ROBERTO RODRIGUES - Colunista

ROBERTO RODRIGUES, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (GV Agro)

Outros textos do colunista

NA PRIMEIRA semana de maio, foi realizada, em Ribeirão Preto-SP, a 24ª edição da Agrishow, feira dinâmica que já é, hoje, a maior da América Latina e a terceira do mundo. Com a boa safra recorde de grãos deste ano e a aparente retomada da economia, o resultado da Feira foi bem melhor do que o do ano passado, embora ligeiramente abaixo da expectativa dos realizadores. Na verdade, a Agrishow repetiu o sucesso observado nas outras dinâmicas de 2017, realizadas em Cascavel-PR, Não-Me-Toque-RS e Rio Verde-GO, todas elas apontando para maior confiança do produtor rural no futuro. E, se melhor não foi, isso se deveu a alguma expectativa pessimista sobre os preços das principais commodities: com safras muito grandes no hemisfério Sul e promessa também auspiciosa no Norte, os estoques globais crescem, balizando renda menor do que se previa inicialmente. Mas, que impressionante a quantidade de inovações tecnológicas exibidas em Ribeirão Preto!

Máquinas espetaculares serão operadas por controle remoto, de modo que um único "tratorista" poderá tocar mais de duas a partir do escritório. Outras, gigantescas, permitirão rebocar mais de trinta linhas de plantadeiras, com excelente resultado no aproveitamento das janelas de plantio, otimizando nosso "jabuti" de mais de duas safras por ano. Estes colossos custarão caro, mas os grandes produtores encontrarão, como ficou claro na Agrishow, mecanismos adequados de financiamento. Mas, e os pequenos?

Drones de todo tipo facilitarão a gestão, sobretudo na avaliação da incidência de pragas e doenças e no seu imediato combate de forma localizada. Enfim, um mundo novo abre-se aos grandes produtores, na direção de uma crescente competitividade com os nossos concorrentes de fora que também usarão os mesmos equipamentos. Mas, e os pequenos?

Que dizer da agricultura inteligente? Tem-se a aplicação da “internet das coisas” no campo, cujos sistemas de coleta de dados, compartilhamento e análise de informações obtidas no campo viabilizarão tomadas de decisão mais precisas. Sensores inteligentes a partir de nanotecnologia ou de robôs especializados coletarão dados sobre temperatura e umidade do solo, direção e velocidade dos ventos. Pivôs poderão ser acionados do escritório, monitorarão movimentos de rebanhos, o seu ciclo de ovulação e o suprimento de alimentos. A agricultura de precisão, a automação e a logística serão servidas por essa novel ferramenta digital, de grande interesse para os médios e os grandes produtores. Mas, e os pequenos?

É certo que nada disso vai acontecer do dia para a noite, pois a conectividade no campo tem muito menores cobertura e efetividade do que nas áreas urbanas, onde o carro sem motorista já é uma realidade. Além disso, as variáveis a serem analisadas no campo são inúmeras. Os cientistas falam em "machine learning" – as máquinas irão aprender com técnicas especializadas a se conectarem umas com as outras e com celulares, iPads ou computadores tradicionais.

Não será fácil assimilar tudo isso, e os megaprodutores chegarão mais depressa do que os outros. Mas, afinal, e os pequenos? Que será deles?

Com a palavra, tem-se as cooperativas, cujo papel na agregação de valor socializado será cada vez maior. E já existem start-ups pensando nisso.

Vamos assistir a revoluções com as quais nunca sonhamos.