Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Opinião

“Salvando a lavoura”

Junho de 2017

ARNALDO JARDIM - Colunista

ARNALDO JARDIM, Deputado federal (PPS/SP) e ex-secretário de Agricultura e Abastecimento do estado de São Paulo

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COM UMA performance positiva de 6,40% em 2017, a atividade agropecuária deve ser a responsável por nada menos do que 75% do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro neste ano. Mais uma vez, o agronegócio salva a lavoura em tempos de economia fragilizada no Brasil – com estimativas de que a indústria deve crescer tímidos 0,88% e o setor de serviços deve diminuir 0,60% em 2017.

Sem a agropecuária, o PIB do Brasil teria, neste ano, alta de apenas 0,12%, em vez do já modesto 0,47% projetado pelo mercado. Esses 75% representam a maior fatia de participação do agro no crescimento econômico desde 1999, quando contribuiu com 77% do total.

Em 2014, o agronegócio foi o responsável por 21,4% da evolução de todo o PIB brasileiro, que, mesmo assim, recuou 0,4% naquele ano. Esta participação relativa subiu para 21,5% em 2015, num quadro de recessão de -3,8% no PIB. Chegou a 23% em 2016, quando o PIB brasileiro recuou 3,6%. São quedas do PIB que seriam ainda mais acentuadas não fosse a atividade no campo.

O setor agropecuário representou, em 2016, nada menos do que 48% das exportações totais do País – totalizando US$ 72,5 bilhões.

Enquanto outros setores cortam empregos, a agropecuária gera empregos. De acordo com o Ministério do Trabalho, o interior dos estados com as nove maiores regiões metropolitanas criou 41 mil empregos formais. Destes, 14,6 mil foram gerados pela agropecuária, com 7.673 tendo sido apenas pelo setor sucroenergético. Capitais e arredores eliminaram 92.980 mil.

O próprio investimento em infraestrutura virá por portos, rodovias, ferrovias, hidrovias, aeroportos e armazenamento imprescindíveis para escoar a riqueza do campo.

É um setor, portanto, que merece ser prioridade na fixação de políticas públicas. Destaco a definição de um Plano Safra plurianual com regras definidas, dando mais condições de planejamento ao homem do campo. É preciso, ainda, a definição de um novo contorno regulatório para o seguro agrícola, fazendo com que ele migre para um seguro de renda.

É indispensável, também, um permanente investimento em pesquisa e inovação que nos garanta avançar em produtividade, na evolução das novas variedades de cultivares e no melhor desempenho de equipamentos agrícolas e insumos, sempre respeitando o meio ambiente.

Quando participei das comemorações de dez anos do GV Agro (Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas), ouvi com atenção o professor Yoshiaki Nakano, que nos brindou com considerações sobre a conjuntura econômica brasileira e basicamente uma reflexão: lembrou ele que o setor industrial, durante muito tempo, foi encarado como o setor capaz de induzir o início de ciclos econômicos no Brasil recente. Isso se devia à sua capacidade de acumular mais capital e de inovação e à virtuosidade que tinha de impactar os demais setores da economia.

O professor Nakano nos fez uma indagação: será que esse raciocínio se mantém ou será que essas condições estão muito mais presentes, hoje, no setor agropecuário do que na indústria? Ou seja, o setor agropecuário tem um acúmulo de capital com base de decisão no Brasil, capacidade de inovação reafirmada e impactos verificados sobre toda a estrutura produtiva.

Não será tal setor capaz de mais rápida e profundamente induzir um novo ciclo de crescimento econômico? Resta a indagação, fica o desafio...