Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

1ª reunião Canaplan 2017

Perspectivas para a safra 2017/18 de cana-de-açúcar na região Centro-sul

Junho de 2017

Equipe Canaplan: Luiz Carlos Corrêa Carvalho, Fernando Carvalho, Nilceu Cardozo, Julio Campanhão, Ericson Marino, Ciro Sitta, Denis Oliveira

O encontro abordou o tênue equilíbrio da economia brasileira, além dos desafios da economia internacional. Procurou-se caracterizar o novo ciclo da economia mundial e o do setor sucroenergético, mostrando a necessidade de mudanças efetivas em todos os níveis políticos e da produção, explorando o tema de políticas públicas ao etanol (RenovaBio).

Abordou-se, entre outros aspectos, a questão do crescimento setorial em termos de área colhida com cana-de-açúcar e produção obtida, mostrando dois momentos bem diferentes: crescimento e estagnação.

1ª reunião Canaplan 2017

1ª reunião Canaplan 2017

Sobre custo e expectativas para a safra 2017/18, Haroldo Torres (Pecege) apresentou um trabalho assentado sobre 101 participantes (empresas setoriais) ou 30% das usinas e mais de 37% da moagem nacional, tanto em áreas tradicionais, como em áreas de expansão da cultura canavieira, com as seguintes conclusões sobre os custos totais de cana-de-açúcar na safra 2016/17:

- A formação do canavial responde por 19% do custo total (R$ 97,03/tonelada de cana – tc – no Sudeste) da matéria-prima (incluindo financeiro);

- Os tratos de soca respondem por 17%;

- Corte, Transporte e Transbordo (CTT) respondem por 32%;

- Os custos administrativos respondem por 7%;

- Os custos de oportunidade (terra) respondem por 25% dos custos totais.

Para o Centro-Sul, com um custo de cana-de-açúcar a R$ 95,39/tc (com depreciações e remunerações de capital e terra), obteve-se, na média, um custo industrial de R$ 29,15/tc processada (com depreciação e custo do capital), R$ 13,48/tc de custo administrativo (incluindo capital de giro), atingindo R$ 138,02/tc processada como custo total.

1ª reunião Canaplan 2017

1ª reunião Canaplan 2017

A apresentação de Júlio Campanhão (Canaplan) abordou o tema produtividade. Com base no que chamou de incômodo provocado pela análise do banco de dados da Canaplan, mencionou a queda média da produtividade entre os cortes (19% do primeiro para o segundo; 15% do segundo para o terceiro; 11% do terceiro para o quarto; e 6% do quarto para o quinto), que, como média, deve ser confrontada com resultados de produtores, em São Paulo, com 104 a 108 toneladas de cana por hectare com mais de sete cortes.

Esse fato, real, mostra o tamanho das perdas sobre um enorme potencial produtivo existente (cerca de 100 milhões de toneladas de cana).

Com a aplicação de diversos tratamentos experimentais, fundamentais para a obtenção dos resultados citados, Campanhão usou o Método Inter-rotacional Ocorrendo Simultaneamente (Meiosi) para mostrar a redução dos custos com a reforma e a implantação de canaviais em sistema de rotação com plantas leguminosas.

A apresentação feita pela Equipe Canaplan (Caio Carvalho e Nilceu Cardozo) para a projeção da safra mostrou a amplitude dos resultados da safra 2016/17 no Centro-Sul, caracterizando elevada dispersão de dados (de 6,20 t de ATR/ha a 13,89 t de ATR/ha).

Uma característica importante para a comparação das safras anteriores e, em especial para a safra 2016/17, foi a relevância da chamada cana bis (cana de dois verões).

Para a safra 2017/18, há uma série de fatores a serem observados:

- Cana bis muito menor, caindo de 8% (2016/17) para 3%;

- Idade maior do canavial, subindo de 3,5 anos para 3,8 anos;

- Menor peso das canas de dezoito meses a serem colhidas;

- Maior plantio requer maior volume de canas e menor área de colheita;

- Desequilíbrios das safras 2015/16 e 2016/17 para “pagar", mas melhora no trato dos canaviais;

- Continuidade dos problemas de sanidade;

- Área estagnada.

Avaliando chuvas e outras questões climáticas, Nilceu Cardozo observou um menor coeficiente de variação desses aspectos no ano de 2017 em relação a 2016.

1ª reunião Canaplan 2017

1ª reunião Canaplan 2017

Uma questão-chave é como o florescimento deverá ter menor impacto na safra 2017/18, que, de fato, deverá sofrer mais, em face do menor volume de cana bis e do envelhecimento do canavial, levando a menor produtividade agrícola, assim como maior replantio “comendo" áreas de colheita.

Nesta sua 1ª reunião do ano, a Canaplan mostrou um modelo que buscou caracterizar a região Centro-Sul como uma enorme usina, com o maior canavial do Planeta. A moagem no Centro-Sul mudou muito, com impactos na qualidade da cana em face do aumento da margem das canas nas pontas da safra e da redução no meio (onde a qualidade é melhor), o que leva a uma redução no índice médio dos Açúcares Totais Recuperados (ATR) na safra.

Como o setor vem se desequilibrando (pelo menos o plantio), recuperá-lo significa reduzir a área de colheita.

Na continuidade dessa avaliação, Caio Carvalho mostrou a importância da produção de etanol para o equilíbrio setorial e fez alguns comentários adicionais sobre fatores relativos à oferta de canas na safra 2017/18:

- Da safra 2013/14 em diante, teve-se área travada e oferta estagnada de cana no Centro-Sul, com queda acentuada nos ATR; vê-se variações por conta do clima, da idade do canavial e de suas sequelas (não investimento e problemas operacionais);

- A oferta de etanol, no período, gira entre 25 bilhões e 27 bilhões de litros, com relativamente pouca volatilidade, enquanto a de açúcar (entre 31 milhões e 35 milhões de toneladas) apresenta variação muito maior; o - mix- de produção mostra isso.

Como projeção de produção para a safra 2017/18, a Canaplan sintetizou da seguinte forma:

- Área cultivada com cana-de-açúcar em estagnação desde 2013.

- É fundamental buscar a recuperação dos índices de renovação dos canaviais.

- Para manter a oferta de canas, é preciso que haja ganhos efetivos de produtividade agrícola ou expansão da área.

- Como se faria isso, com a queda na produtividade, as unidades em recuperação judicial e o alto endividamento com difícil acesso a crédito?

- Os efeitos dos investimentos ou desinvestimentos são lentos. A recuperação, no entanto, é mais lenta ainda.

- No modelo desenvolvido em que se tem o Centro-Sul como uma enorme usina, há um potencial perdido de 100 milhões de toneladas de cana na terra desde 2013. Para estabilizar o canavial com investimento de reformas de 16% ao ano, serão precisos seis anos ou um ciclo completo.

- Não há milagre a se esperar no curto prazo. No entanto, não agir agora empurra o destino para mais longe.

A avaliação financeira do setor foi apresentada por Manoel Queiróz (Rabobank), que iniciou a sua exposição pela caracterização de um setor bem heterogêneo no que diz respeito à amostra qualificada do Banco em termos de unidades produtoras.

O endividamento setorial deverá mostrar leve redução na safra 2016/17, caindo de R$ 136,00 para R$ 127,00 por tonelada de cana moída. Com os pressupostos de uma taxa de câmbio de R$ 3,10/US$, em 2017, e R$ 3,20/US$, em 2018 e uma taxa de juros Selic de 8,5%, em 2017, e 8,0%, em 2018, os preços projetados para a safra 2017/18 ficaram: entre 16,5 e 18,0 centavos de dólar por libra peso de açúcar; e de US$ 1,55 a US$ 1,60 por litro de etanol hidratado, sem impostos.

1ª reunião Canaplan 2017

Em síntese, acredita-se que a safra 2017/18 deverá trazer uma queda significativa dos juros, com margens razoáveis e boas ao produtor, dando melhores condições para baixar a dívida e/ou aumentar a liquidez.

As apresentações de mercado foram feitas pela LMC International (Gareth Forber) para o açúcar e pela Bioagência (Tarcilo Rodrigues) para o etanol.

Como conclusões, Forber realçou:

- O balanço mundial está movendo-se para excedentes. Estes parecem prováveis para 2017/18 e serão apoiados por preços atrativos para a beterraba e a cana em relação a outras culturas.

- Os preços moveram-se para próximo da paridade com o etanol, na expectativa de que o Brasil produza grande volume de açúcar. - Algumas novidades altistas são requeridas! Há algumas?

- O mix de produção do Brasil:- poderá o Brasil produzir menos açúcar?

- O prêmio do açúcar sobre o etanol e a relação dos produtores brasileiros a isso serão pontos-chave no balanço do comércio.

- Risco de clima:- os estoques globais estão mais apertados do que no último ano, significando que o clima será mais importante do que já é.

- Forte demanda por importações:- ainda acreditamos que a Índia necessitará de importações adicionais para atender o seu déficit em 2017 e, potencialmente, 2018.

Na avaliação de Rodrigues, o mix de açúcar deverá ser, na safra 2017/18, de 47,4%, levando a uma produção levemente menor de açúcar e a uma menor oferta de etanol (-1,2 bilhão de litros) sobre a de 2016/17. Isso reforçaria a necessidade de políticas públicas sobre a questão das importações pelo setor.