Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Economia

Rumo incerto

Junho de 2017

A ECONOMIA brasileira, após um ano de ajustes, começou a apresentar alguns sinais positivos em alguns indicadores. O mais contundente deles é a inflação, que caiu significativamente nos primeiros meses de 2016. De fato, após ter atingido um patamar superior a 10% no acumulado em doze meses no começo do ano passado, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA) tem surpreendido positivamente, registrando variações abaixo do esperado. A inflação acumulada em doze meses em abril de 2017 ficou em 4,1%, abaixo da meta de 4,5% para este ano. As indicações são de que a inflação desacelerará ainda mais, devendo fechar o ano abaixo de 4,0%.

Na raiz dessa queda, obviamente, encontra-se a profunda recessão pela qual o País atravessa. Desde 2014, a economia brasileira encontra-se em retração, acumulando uma queda da renda real per capita superior a 10% nesse período. A taxa de desemprego encontra-se acima dos 13%, e o número de desempregados no País é o maior na última década e meia. Na esteira da recessão que o Brasil enfrenta, o ritmo de alta dos preços cedeu ante a debilidade da demanda verificada na nossa economia. A ausência de vetores de recuperação da atividade de forma mais robusta no curto prazo deixa um conjunto de incertezas pairando no ar quanto ao crescimento econômico em 2017.

Obviamente, as dificuldades de retomada da atividade econômica brasileira estão intimamente associadas aos excessos praticados anteriormente em múltiplas dimensões no nosso País no âmbito econômico e financeiro. Os excessos de estímulos ao crédito levaram a uma carga de endividamento das famílias e das empresas incompatível com a sua renda corrente. Esse fenômeno agravou-se ainda mais com a queda do Produto Interno Bruto (PIB) e o aumento do desemprego. Nesse sentido, o Brasil atravessa um processo de redução do grau de endividamento relativo dos agentes privados, o que tem condicionado a diminuição do volume de crédito em proporção do PIB na nossa economia. No curso natural deste processo, no entanto, verifica-se que o consumo das famílias e os investimentos das empresas seguem retraídos, o que deve ser verificado até o ponto em que esse ajuste esteja encerrado.

Do lado do Governo, o ajuste fiscal em curso, embora essencial e trazendo boas perspectivas para o País no médio prazo, não tem caráter expansionista no curto prazo, não contribuindo para estimular a demanda agregada no Brasil neste momento.

Restou à política monetária, nos últimos meses, o papel de proporcionar algum alívio nesse cenário. Com a queda da inflação de forma sistemática, o Banco Central tem encontrado espaço para reduzir a meta da taxa básica de juros – Selic. Esse quadro abre uma perspectiva favorável para a retomada do consumo e dos investimentos produtivos no médio prazo.

De qualquer forma, as sinalizações com relação à atividade econômica nos últimos meses apontam para uma estabilização e indicam que uma retomada começa a se desdobrar no horizonte, ainda que não seja robusta.

Os maiores riscos para um cenário que começa a se mostrar mais favorável para a economia brasileira residem, atualmente, no campo político. A articulação do governo Temer mostrou-se muito produtiva no campo legislativo, aprovando temas sensíveis e essenciais à economia nacional nos últimos meses. A pauta de reformas para 2017 também se mostrava fundamental para a modernização da nossa economia e da sustentabilidade das contas públicas. Nesse contexto, tanto a reforma trabalhista quanto a previdenciária são fundamentais, dado o quadro de irracionalidade no campo econômico que prevaleceu durante o governo Dilma.

No entanto, os abalos políticos enfrentados pelo governo recentemente colocaram um desafio enorme em termos de coesão no Legislativo para avançar em temas como esses. O atraso na aprovação dessas reformas reforça as incertezas quanto ao futuro da economia brasileira no médio prazo. As incertezas políticas, caso não sejam dissipadas, afetarão, também, a incipiente recuperação da atividade econômica que tem sido ensaiada nos últimos meses.

A somatória desses elementos indica que os rumos da economia brasileira serão ditados fundamentalmente pelos desdobramentos políticos em Brasília. Nesse ambiente, qualquer cenário é possível, ficando pouco factível estabelecer projeções mais confiáveis neste momento.