Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Leite

Melhora na relação de troca estimula a oferta

Junho de 2017

A PRODUÇÃO brasileira de leite sob inspeção registrou, em 2016, a segunda queda anual da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 1997. O cenário econômico dos últimos anos impôs desafios gerenciais ao setor produtivo, que tem pressionado a cadeia de leite por mais competitividade. Um exemplo disso foi a queda de 5,5% nas vacas ordenhadas em 2015. Ou seja, animais de baixa produção, sabidamente não rentáveis, foram descartados. A queda da rentabilidade na pecuária de leite, associada à melhoria nos preços da arroba bovina, estimulou o abate de animais e, ao mesmo tempo, prejudicou investimentos na produção de leite.

Comparando a produção semestral de leite sob inspeção, verifica-se uma queda iniciada em 2015, que foi se agravando até atingir o menor volume no primeiro semestre de 2016, cerca de 6% abaixo da produção do primeiro semestre do ano anterior.

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Nesse mesmo período, os dados do Índice de Custo de Produção de Leite (ICPLeite), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), revelam que o custo de produção do leite veio seguindo uma trajetória de alta desde o início de 2013, tendo se acentuado de 2015 até meados de 2016. Energia, combustíveis, concentrados e sais minerais foram os insumos com maior elevação de preços ao longo desse período. Ao se observar o preço real do leite ao produtor, deflacionado pelo ICPLeite – que reflete a relação de troca ao produtor –, tem-se que os dois semestres de 2015 e o primeiro de 2016 apresentaram os menores valores do período de 2013 a 2016. Os preços reais médios destes três semestres ficaram 12,3% abaixo dos preços médios pagos ao produtor de 2013 a 2014 – período em que a produção nacional cresceu mais de 5% ao ano.

Em contrapartida, alguns sinais de recuperação, ainda que modestos, estão aparecendo, e a tendência é de incremento da oferta ao longo de 2017. Esta projeção baseia-se, principalmente, na melhoria dos termos de troca (preço de leite/preço de insumos). A recuperação da oferta começou já no segundo semestre de 2016, em resposta a incrementos nos preços relativos entre leite e insumos, que ficaram 8,7% superiores à média do período 2013-2014. Isso acabou atenuando a queda da produção de leite nacional.

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Em 2017, a boa safra de grãos no Brasil e nos Estados Unidos tem contribuído para o recuo no custo de alimentação das vacas. Os preços reais pagos ao produtor de leite neste primeiro trimestre, deflacionados pelo custo de produção, ficaram 15,4% acima da média observada no mesmo trimestre de 2016. Ainda que a trajetória de preços pagos ao produtor não seja tão volátil e explosiva como no ano passado, a tendência continua de elevação no curto prazo.

As sinalizações para a demanda doméstica também sugerem melhorias, ainda que modestas, na esteira da recuperação da renda e da queda das taxas de juros e da inflação, o que deverá refletir em maior demanda por leite e derivados.

No mercado internacional, com exceção dos Estados Unidos, quase todos os grandes exportadores estão com restrição de oferta, gerando uma menor disponibilidade mundial. A safra 2016/17 da Nova Zelândia e da Austrália está chegando ao fim, sendo menor do que no ano anterior. Na União Europeia, desde junho de 2016 a produção mensal tem ficado abaixo do ano anterior. Argentina e Uruguai estão com baixa disponibilidade. A consequência desse ajuste na oferta é a recuperação das cotações internacionais. Os preços internacionais do leite em pó integral subiram de US$ 2 mil por tonelada, no início de 2016, para cerca de US$ 3 mil por tonelada, em março de 2017, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). Essa recuperação dos preços internacionais, associada à menor disponibilidade de leite na Argentina e no Uruguai e à recuperação da safra brasileira, tende a melhorar o resultado da balança comercial brasileira de leite e derivados, apesar de esta permanecer deficitária no fechamento de 2017.