Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Roberto Olinto Ramos

Censo agro 2017

Julho de 2017

ROBERTO OLINTO RAMOS, Presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

Engenheiro de Sistemas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), mestre em Engenharia de Sistemas pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE/UFRJ) (1979) e doutor em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ (1997), Roberto Olinto Ramos, atualmente presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi coordenador das Contas Nacionais na mesma instituição, consultor do Fundo Monetário Internacional (FMI) e membro do grupo de especialistas em contas nacionais das Nações Unidas (Advisory Expert Group – AEG).

AGROANALYSIS: COMO FICOU O ORÇAMENTO DO CENSO 2017?

ROBERTO OLINTO RAMOS: O Censo será completo, com uma abrangência de 5,3 milhões de estabelecimentos rurais distribuídos em 5.570 municípios, com um maior nível de precisão nas respostas apuradas pelas entrevistas e um menor custo. Com a restrição orçamentária, o trabalho foi repaginado e ganhou em qualidade e simplicidade operacional. Um censo detalhado custaria aproximadamente R$ 1,6 bilhão em três anos, mas o orçamento da União destinou, por meio de emenda parlamentar, R$ 505 milhões para 2017. Para o exercício de 2018, precisaremos de um aporte de R$ 278 milhões para completar o Censo. O corte foi em torno da metade.

Incluímos todas as perguntas que caracterizam a propriedade rural, desde as técnicas de produção às dificuldades eventuais, como o valor e as despesas de produção. O universo da agricultura familiar está inserido no trabalho. A ideia é complementar esse Censo, a partir do próximo ano, com pesquisas amostrais anuais dos estabelecimentos. Teremos de contar com verbas orçamentárias extras. Neste momento, apenas mais aporte de dinheiro não garantiria uma nova reformulação do projeto. As pessoas precisam ser contratadas agora, pois o levantamento está previsto para começar em 1º de outubro próximo e encerrar em fevereiro de 2018. O período de coleta das informações foi ampliado de três meses para cinco meses. Estamos em cima da hora.

ESSE CORTE PODE COMPROMETER OS RESULTADOS?

ROR: Tivemos de enxugar o questionário do Censo Agropecuário por conta de restrições orçamentárias. No entanto, o IBGE pretende implementar, a partir de 2019, uma pesquisa amostral com periodicidade anual. Essa é uma inovação que será introduzida na rotina de trabalho da instituição. Com isso, obteremos de forma complementar as informações que ficarão de fora do levantamento censitário, especialmente aquelas que dizem respeito aos rendimentos e aos aspectos financeiros do negócio agropecuário.

Esse novo levantamento anual deve funcionar nos moldes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), uma espécie de PNAD Agropecuária. Isso funcionará com visitas a estabelecimentos rurais apenas uma vez ao ano, escolhidos por amostragem específica. A primeira coleta, com questionário mais longo e detalhado, quando comparada com o Censo Agropecuário, seria feita em 2019, com divulgação dos dados em 2020. A estratégia visa cobrir informações que ficarão fora do Censo, como no caso do uso de agrotóxico, equipamento de proteção e destino da embalagem.

OS QUESTIONÁRIOS TIVERAM MUDANÇAS?

ROR: Em função da remontagem da operação, tivemos de realizar testes para reduzir o tempo da entrevista de noventa minutos para quarenta e cinco minutos. As variáveis contidas no Censo Agropecuário de 2006/2007 – que visitou 5,2 milhões de estabelecimentos – serão mantidas, incluindo dados sobre a agricultura familiar e outras variáveis que seguem recomendações internacionais.

Precisamos mostrar ao produtor rural que, por meio da Lei nº 5.534, de 14 de novembro de 1968, o cidadão possui direito garantido de sigilo estatístico. Prestar informações estatísticas ao IBGE constitui uma obrigação, sendo que toda informação fornecida terá fins exclusivamente estatísticos. Devemos separar o levantamento estatístico das questões fiscais e ambientais. Essas são esferas diferentes de tratamento.

Olhamos os questionários diante de um trabalho pós-censo a ser realizado, no sentido de realizar uma tabulação especial, com o formato e os tipos de dados dos demandantes. A integração entre as áreas públicas e privadas é fundamental para o sucesso desse trabalho. É uma atividade mais antecipada e barata para classificar a estadualização, a municipalização e a regionalização das áreas agrícolas homogêneas.

QUAL É A MOBILIZAÇÃO PREVISTA DE PESSOAL?

ROR: Lançamos o edital de mais um processo seletivo simplificado para o preenchimento de 26.440 vagas temporárias para o Censo Agropecuário 2017. Entre as vagas abertas, 19.013 são para recenseadores, com nível fundamental, 4.946 são para agentes censitários supervisores, 1.285 são para agentes censitários municipais, de nível médio, 381 para agentes censitários administrativos, 375 para agentes censitários regionais, 266 para analistas censitários e 174 para agentes censitários de informática. As vagas estão distribuídas por mais de 4 mil municípios brasileiros.

Os postos de coleta também foram enxugados de 5,1 mil unidades para 1.376 unidades. Isso significa que os funcionários contratados terão trabalho mais do que triplicado, porque terão de gerenciar os recenseadores espalhados por mais de 5 mil municípios.

As inscrições são feitas por meio do site da Fundação Getulio Vargas (FGV), que é a banca organizadora do certame. Os candidatos farão prova objetiva, de caráter eliminatório e classificatório. No momento da inscrição, o candidato poderá escolher a função e indicar o município onde deseja fazer o concurso. A divulgação dos locais de prova será realizada ao longo deste mês de julho. Cerca de 70% do orçamento do Censo estão previstos para o pagamento de pessoal.

EXISTE A MONTAGEM LOGÍSTICA?

ROR: Além de 504 municípios com agência do IBGE, contaremos com 1.360 postos de coletas. Uniremos os produtores também com o apoio das federações agropecuárias estaduais, dos sindicatos rurais e do sistema cooperativista. Isso aumentará a capilaridade do trabalho. Chegaremos até à sede de cada propriedade rural para agendar a entrevista, com duração média de quarenta minutos. O levantamento é georreferencial, com descrição dos limites, das características e das confrontações do imóvel rural. Todas as sedes de imóveis receberão visitas dos recenseadores

As Coordenações Estaduais de Divulgação das Unidades Estaduais atuarão localmente na divulgação do Censo Agro, em trabalho conjunto com o Centro de Documentação e Disseminação de Informações (CDDI) e a Coordenação de Comunicação Social. Teremos alguns facilitadores com centro de atendimento, sistema de recebimento de questionários on-line, com senha de acesso, e-ticket e criptografia. Disponibilizaremos 700 regras de críticas, com que o computador confirma e pede complementação de dados.

PODEMOS PENSAR EM UM NOVO ESCOPO DE CENSO?

ROR: Pensamos, por exemplo, num sistema nacional de pesquisa que tome o Censo como cadastro com base em pesquisas amostrais, em paralelo com as atividades realizadas pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Isso implica o aprofundamento de outros temas mais específicos. Seria uma fase experimental, com compartilhamento das bases de dados e conhecimentos. Seria olhar a cadeia produtiva de forma integral e aceitar outras fontes de informações.

EXISTEM DESAFIOS NA COMUNICAÇÃO?

ROR: Para realizar uma operação do porte de um censo, com a cobertura de todo o País, o IBGE precisa do apoio e da participação de todos. É imprescindível o público entender a importância de receber o recenseador e responder ao questionário da pesquisa corretamente. Antes mesmo de iniciar a fase de coleta, a instituição começará a sensibilizar e conscientizar a sociedade, por meio das ações de mobilização.

Nesse Censo Agro, especificamente, não haverá agência de publicidade contratada para a criação e a veiculação da campanha. O próprio IBGE criará o conceito da campanha e desenvolverá as peças para a divulgação do Censo Agro 2017. Buscaremos apoio e parcerias para a divulgação por meio das associações, das entidades e de outras instituições.

Sensibilizaremos o público que vive do agronegócio, seja em maior ou menor escala. Mostraremos a importância de responder à pesquisa para o retorno positivo de melhores condições de vida no campo. Como peças previstas de divulgação, teremos audiovisuais e peças gráficas. Adotaremos como motes da campanha: “Eu abro a porta sim"; “Responder ao Censo é bom para o Brasil"; e “É melhor para mim".