Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

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O agro de diferentes escalas para diferentes mercados

Julho de 2017

João Adrien, Diretor executivo da Sociedade Rural Brasileira (SRB)

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O PENSAMENTO que permeou o desenvolvimento do Brasil no século XX teve como base a criação de uma economia de escala para torná-lo um player global, conquistando mercados competitivos e exigentes. Sob esse pensamento, o País se tornou uma das dez economias mais pujantes do mundo, passando de importador de alimentos para um dos principais exportadores.

Essa dinâmica foi acompanhada por um arcabouço legal voltado para a padronização das leis sanitárias, para garantir qualidade e segurança na alimentação. Este arcabouço legal possibilitou o desenvolvimento de grandes indústrias alimentícias, porém, nos dias de hoje, está obsoleto e, em certas circunstâncias, coloca na ilegalidade os diversos modelos de diferentes escalas da agricultura brasileira.

Com o aumento de renda na primeira década do século XXI, o consumo de produtos de maior valor agregado teve crescimento exponencial no País, sinalizando a disposição do consumidor em pagar um diferencial para uma produção diferenciada.

Para o Brasil, essa tendência é uma oportunidade para estruturar um modelo de produção que podemos definir como de “pequena escala”. Diferentemente da produção de commodities, na qual o produtor não interfere no preço final de seu produto; neste modelo de “pequena escala”, o produtor consegue agregar valor à sua produção.

O que existe, neste momento, é um grande potencial para o Brasil desenvolver, de forma integrada, uma economia de escala para a produção de alimentos com baixo custo para populações de menor renda e, ao mesmo tempo, estruturar de forma competitiva e moderna uma produção de “pequena escala” porém com alto valor agregado. Este modelo é a base do agro de países como a França, a Itália, entre outros.

A SRB, recentemente, desenvolveu a Feira Viva, com o intuito de aproximar o produtor rural do público consumidor, abrindo mercado e visando estruturar a cadeia produtiva de produtores que tenham uma produção diferenciada, conciliando conceitos como agricultura, meio ambiente, gastronomia e regionalidade. Estes conceitos valorizam e fortalecem as diversas regiões brasileiras, trazem reconhecimento ao produtor rural e apresentam inovações tecnológicas e artesanais para uma produção que tenha relevâncias gastronômica, cultural e produtiva para o País.

Com a Feira Viva, a SRB discute os desafios para o desenvolvimento desses novos modelos produtivos e, principalmente, como o arcabouço legal não coloca na ilegalidade esse tipo de produção. Atualmente, a legislação ainda está pensada para uma dinâmica de grandes empresas. O desafio, neste momento, é dar o próximo passo e desenvolver uma agroindústria artesanal competitiva, que venha, também, a ter escala no País.

Nesse sentido, surge a necessidade de pensar e estruturar novos modelos de produção para a diversidade de produtores rurais brasileiros e os diferentes mercados e consumidores que surgem no século XXI. Iniciativas como a Feira Viva e entidades como a SRB propõem-se a pensar na estruturação dessa cadeia produtiva de forma pragmática, sem ideologia e gerando renda e alternativas para que o produtor rural tenha oportunidades de continuar no campo.