Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Gestão estratégica e associativismo

Sistema integrado ORPLANA

Julho de 2017

Desde o começo deste século, a dinâmica do setor sucroenergético levou à expansão das fronteiras dos canaviais, com a formação e o desenvolvimento de produtores. Com a implantação de muitas unidades industriais, a lavoura ganhou escala de produção no campo. Enquanto isso, para o crescimento ordenado da cadeia produtiva, a elaboração e a execução de planos de investimentos exigiram maciços recursos financeiros.

Nesse agronegócio gigante, a ORPLANA atua no elo da produção (fornecedor) de cana-de-
açúcar, com a participação de 33 associações de cinco a noventa anos de existência, aglutinando mais de 11.000 associados, em cinco estados da região Centro-Sul.

O Planejamento Estratégico (PE) da ORPLANA para o horizonte 2015-2025 estabeleceu como peça-
chave a construção de um espaço corporativo para apoiar de forma integral as associações, com um grande “efeito guarda-chuva". Para conciliar dois pontos cruciais – a administração estratégica e o associativismo –, a entidade fixou como prioridade separar as suas ações de cunho político-representativo-institucionais da gestão organizacional.

O diagnóstico do PE identificou a prática de ações paralelas, em duplicidade e sem convergência entre as associações. Pessoas, capitais e recursos diversos poderiam ser melhor otimizados por outros modelos de parceria. Para tanto, traçou-se um plano de trabalho de motivação, incentivo e envolvimento entre elas, com uma visão voltada para o caminho mais eficiente e eficaz da cadeia produtiva.

Nesse processo, concebeu-se um projeto de regionalização para ajudar na compreensão das diferenças existentes nas áreas cultural, social, econômica e de produção das associações. Elegeram-se locutores regionais para facilitar os intercâmbios interno e externo entre elas.

Formamos Grupos de Trabalho (GTs) com profissionais de competências distintas, para dar suporte e boa gestão ao produtor de cana nas áreas jurídica e de meio ambiente, comunicação e relacionamento, indicadores de desempenho e análises laboratoriais, dentre outras.

Assim, quando cruzarmos temas como sustentabilidade, Protocolo Agroambiental, legislação trabalhista, segurança e saúde no trabalho, eficiência produtiva e inovação tecnológica, poderemos mostrar a importância da comunicação, com informações e narrativas claras, para entender os cenários desenhados.

À medida que incentivarmos as boas relações político-institucionais entre as associações, os associados, as usinas e as empresas de máquinas, insumos e serviços, poderemos sempre conscientizar sobre a necessidade da revisão constante do Conselho de Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo (CONSECANA) como metodologia ímpar na precificação da matéria-
prima com transparência, prioridade e qualidade.

MUNDO DAS ASSOCIAÇÕES DE PRODUTORES

Como esse elo da cadeia produtiva de cana-de-açúcar é bem heterogêneo, com hábitos distintos, diversos sistemas de produção, realidade econômica múltipla e variados desejos e preferências, é importante entender como as soluções e os cenários chegam aos produtores.

Na formação das alianças estratégicas, as associações passaram a experimentar o grande diferencial no diálogo entre as suas correlatas vizinhas, de modo a compartilhar conhecimento, sucessos e insucessos, em prol de uma causa única e principal. Essa troca de experiência é salutar.

Na verdade, de nada adianta que as associações iniciem novas ações sem antes “derrubarem os muros existentes entre elas". Ao direcionarmos as informações para cima, junto à ORPLANA, passamos a conhecer e disseminar as necessidades existentes nas bases de produção. Aos poucos, mudaremos da categoria de condomínios isolados para uma grande integração associativa.

Hoje, o setor sucroenergético “ventila" um ar de prosperidade impulsionado pelo maior consumo de biocombustíveis, alimento e energia renovável. A ORPLANA, como deseja desfrutar desta conjuntura, pode elevar o papel de protagonista do produtor, com um futuro seguro e rentável.

Gestão estratégica e associativismo

A busca de excelência na produção agrícola entre os fornecedores contribui para a coordenação da cadeia produtiva sucroenergética. Por outro lado, como implica o fortalecimento da atuação política, pressiona a participação de seus dirigentes e representantes nos fóruns do sistema produtivo canavieiro do Brasil e do mundo. Assim, para ser porta-voz renomada dos produtores, a ORPLANA precisa entender as demandas básicas deles, como elo importante na coordenação entre governos, produtores e indústria.

As ações de engajamento, formação e capacitação junto à base de produção representam a sequência lógica das alianças montadas no PE da ORPLANA. Nessa visão de convergência, a entidade deve mobilizar, nos fóruns de discussão, desde a gestão de riscos na comercialização dos insumos de produção até o entendimento da metodologia da venda de cana.

A formação do produtor com visão mais empresarial, independentemente do seu tamanho e do seu perfil, faz parte, também, dos projetos das diversas empresas atuantes no agronegócio de cana. Com suas competências específicas, esses atores podem dar suporte a uma base de produtores mais resistentes às mudanças.

Ainda sob as sequelas da crise experimentada nesta década, essa visão de recuperação do setor sucroenergético identifica novos passos na expansão, que deve ser delineada com cautela, pois envolve modelos mais sustentáveis, como o monitoramento do plantio, o zoneamento agroecológico e a aptidão econômica da região potencial.

As alianças estratégicas representam o melhor caminho, por meio das quais se troca a relação de “um versus o outro" pela “soma de todos pelo todo". Neste ano, a ORPLANA enceta uma série de ações transformadoras no agronegócio de cana. Pretendemos atender os anseios do produtor, com a apresentação dos resultados obtidos na Implantação do Plano Estratégico da ORPLANA – Visão 2015-2025, tendo como atividades:

I. Programa de Capacitação e Melhoria Contínua e Assistência Técnica para Produtores de Cana-de-açúcar

O projeto coloca novos paradigmas desafiadores na introdução de atitudes mais proativas e progressistas na produção de cana-de-açúcar. O espírito associativo fortalece esse processo, pois oferece mais poder coletivo para o fornecedor isolado. Trata-se de parte de um processo dinâmico de inovação, com aprendizado contínuo e indispensável para o desenvolvimento do negócio.

Objetivos

  • Promover o desenvolvimento técnico e gerencial do produtor de cana;
  • Levar conhecimento útil, aplicado e individualizado ao produtor.

Resultados

  • Assegurar a competitividade do produtor;
  • Garantir a visão de agricultura do futuro: sustentável, ética e moderna.

Meta

Desenvolver e capacitar 3.300 produtores durante seis anos (média de 550 produtores por ano), nos seguintes temas:

  • Agricultura de precisão;
  • Certificação da produção;
  • Controle de custos de produção;
  • Diversificação de atividades e de renda;
  • Legislações florestal e trabalhista;
  • Novos sistemas de propagação da cana;
  • Planejamento agrícola;
  • Planejamento e organização administrativa.

Pilares

  • Interação: estimular as discussões em grupo e incentivar a troca de experiências entre os produtores e os GTs;
  • Capacitação: discussões visando às capacitações técnica e gerencial dos produtores e à disponibilização de materiais e ferramentas aplicadas. Estimular a participação dos profissionais das associações;
  • Análise comparativa, com gráficos e dados dos produtores que possibilitem avaliar e comparar a - performance- - do- seu negócio com a dos outros participantes, bem como identificar quais são as melhores práticas operacionais e de gestão.

II. Projeto Segmentação do Produtor de Cana

Objetiva o melhor entendimento e a estratificação do produtor em seus diferentes níveis tecnológicos, econômicos e sociais.

III. O Fórum de Produtores de AgroEnergia, como parte da programação da FENASUCRO & AGROCANA 2017, de 22 a 25 de agosto próximo, com uma discussão globalizada dos principais países produtores de cana e de beterraba açucareira do mundo.

IV. A realização da 4ª edição do programa Caminhos da Cana, coordenado pelo professor Marcos Fava Neves.

V. A execução do Plano Global de Integração da Cadeia da Cana-de-Açúcar, com o objetivo de aproximar e fortalecer o produtor de cana-de-
açúcar junto às suas associações representativas e à ORPLANA.

Certamente, muitos podem enxergar essas ações como sendo de difícil consolidação, mas preferimos pensar em realizar os sonhos a conviver e remoer os pesadelos.



DESAFIOS NOS NOVOS CANAVIAIS

Além da eficiência na atividade produtiva, cabem a redução urgente nos custos de produção, o olhar de preço justo coerente com a realidade defasada do produtor de cana e ações de representatividade e mobilização, nos aspectos associados a:

  • Regulamentação trabalhista;
  • Segurança e saúde no trabalho;
  • Adequação ao Código Florestal e ao Protocolo Agroambiental;
  • Erradicação da queimada;
  • Mecanização próximo a 100%.

Também no sistema produtivo, grandes obstáculos devem ser desobstruídos quanto maior for a eficiência produtiva, com indicadores de produtividade ousados a serem perseguidos. Com a agricultura mais tecnológica a bater nas suas portas, o produtor de cana é forçado a se transformar em um “agroempresário".

Temas como biocombustíveis, energia renovável, matriz energética, uso racional e otimizado dos recursos naturais ficam recorrentes a cada dia. Isso impõe ao produtor de cana a necessidade de se “reinventar". É preciso entender cenários e conjunturas, nunca discutidos com tanta veemência como na atualidade.

Enfim, o produtor e seus colaboradores terão de assimilar e se apropriar das novas tecnologias de agricultura de precisão, controle de tráfego, plantio direto e tecnologia da informação; todas elas são responsáveis por contribuições positivas nas previsões de aumento de produtividade e qualidade da cana-de-açúcar.