Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O risco da resistência

Queda na eficiência de produtos químicos deixa sojicultores em alerta

Julho de 2017

Em março, o Comitê de Ação à Resistência de Fungicidas (FRAC, na sigla em inglês) divulgou um comunicado informando que as carboxamidas, moléculas inibidoras de succinato desidrogenase (SDHI) usadas no combate à ferrugem asiática da soja, já apresentavam perda de eficiência. A informação foi recebida como um grande alerta para a comunidade científica e, também, para os agricultores.

Desde 2007, o comitê tem avaliado amostras de ferrugem asiática quanto à eficiência, identificando queda na performance. A novidade é que, agora, foi identificada uma mutação na molécula de carboxamida em áreas de intenso uso do produto e alta pressão da doença.

Doutora em Fitopatologia, a coordenadora da Comissão de Defesa Agrícola da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), Roseli Giachini, reforça a importância do alerta do FRAC. “Estamos acompanhando o assunto de perto porque a ferrugem asiática é a maior ameaça à cultura da soja, e a mais persistente", pondera.

“Além do risco que representa, a ferrugem asiática tem sido mais eficiente que os produtos químicos existentes para a combater", pontua Endrigo Dalcin, presidente da Aprosoja e engenheiro agrônomo de formação.

Por enquanto, a saída para os agricultores é manter o controle fitossanitário das lavouras e adotar boas práticas. “É fundamental usar fungicidas com diferentes modos de ação. A rotação de ingredientes ativos e o uso de protetores são práticas fundamentais para o controle da ferrugem asiática", recomenda Giachini.

Hoje, há um número limitado de produtos químicos com modos de ação diferentes no mercado, que devem ser usados em combinação a outras ferramentas de manejo (como o controle de soja guaxa, o vazio sanitário e o cumprimento das instruções normativas que tratam do assunto).

EM BUSCA DE ALTERNATIVAS

As alternativas antirresistência foram o eixo central do IV Simpósio Agroestratégico, evento realizado em maio pela Aprosoja para discutir o manejo do sistema produtivo de soja em Mato Grosso – estado que responde por 29% da produção brasileira do grão.

“O controle fitossanitário químico começa a sinalizar perda de performance. A indagação é: o agricultor está reavaliando suas práticas de manejo? Há alternativas para se considerar, como o controle biológico, por exemplo?", indaga Giachini.

O risco da resistência

Cláudia Godoy, pesquisadora da Embrapa Soja e doutora em Fitopatologia, participou do debate e destacou a resistência da ferrugem asiática aos fungicidas disponíveis no Brasil e em países de fronteira, como Paraguai e Bolívia. “É um cenário preocupante. No mercado, há uma margem de vinte produtos no País, sendo que cinco deles têm uso recomendado e outros nove são produtos com apenas 40% de efetividade no controle da ferrugem. O alerta do FRAC – que sinalizou a mutação de um fungo no Sul do País e em Mato Grosso do Sul – ainda não é o fundo do poço, mas não há novos produtos vindos do exterior há vinte anos. Isso pode colocar em risco toda a produção de soja do Brasil", enfatizou a pesquisadora.

Celso Omoto, PhD em Entomologia pela Cornell University, concorda com Godoy sobre a importância de se adotarem estratégias associadas de vazio sanitário nas regiões produtoras de soja no Brasil e nos países vizinhos.

“Se o desafio é dar longevidade à sojicultura, precisamos de todas as iniciativas possíveis para que os fungicidas sejam mais eficientes. Isso significa dispor de áreas de refúgio e, também, integrar diferentes táticas de manejo. Nossa realidade tropical é diferente da praticada lá fora. Não podemos apenas reproduzir aqui o que é feito nos Estados Unidos, por exemplo", ponderou Omoto.

A peculiaridade do cultivo agrícola em Mato Grosso é enfatizada por Giachini. “Nosso sistema de produção é complexo: temos cultivo o ano todo. A produção em Mato Grosso precisa ser sustentável e rentável, e, infelizmente, não há receita de bolo. Nem sempre o que funciona para um agricultor vai servir para outro. Precisamos de práticas conservacionistas e de todas as ferramentas de controle, que não são apenas químicas", argumentou.

A busca por controle biológico também pautou o Simpósio Agroestratégico. Os painéis debateram a agricultura biológica, como o uso de pó de rochas e produtos de bases biológica e agrogeológica, como potássio, aptos a entrarem no mercado de defesa agrícola.

O risco da resistência

Vitório Herklots, agricultor em Campo Novo do Parecis-MT, é um exemplo de produtor que já aderiu ao controle biológico – e por uma questão de sobrevivência comercial. “Em vez de colher lucro a cada dois anos, eu estava plantando prejuízo anualmente. Precisei parar para ver o que estava fazendo e recomeçar. Dei uma folga de todos os 'cidas' da terra para que os micro-organismos tivessem condições de se recuperar", contou durante o evento.

AÇÃO INTEGRADA CONTRA A FERRUGEM

Mato Grosso, representando o Brasil, aglutinou pesquisadores, agricultores e os governos do Paraguai e da Bolívia para instituir um novo fórum de discussão de estratégias de defesa sanitária da soja. A iniciativa tomou corpo em 4 de maio último, quando foi criado o Grupo de Trabalho Antirresistência Latino-americano (GTA-Latam), na capital Cuiabá.

A ferrugem asiática é o maior problema fitossanitário das lavouras tropicais. As peculiaridades de clima e fronteira entre Brasil, Paraguai e Bolívia demandam a adoção de estratégias coordenadas para coibir o avanço da doença, como a adoção de vazio sanitário e a calendarização do plantio.

No Paraguai, ainda é frequente o plantio de soja sobre soja. O diretor-geral técnico do Serviço Nacional de Qualidade e Sanidade Vegetal e de Sementes do Paraguai (SENAVE), César Rivas, entende que é preciso organizar a legislação do país, onde a soja é a principal atividade econômica. A produção gira em torno de 10 milhões de toneladas, e, em 2015, foram investidos cerca de US$ 360 milhões no controle da ferrugem asiática.

Terceira atividade econômica do país, o plantio de soja na Bolívia também requer uma legislação mais eficiente. O país chega a perder cerca de 30% de sua produção (cerca de 3,2 milhões de toneladas) com a doença, informa o presidente da Associação de Produtores de Oleaginosas e Trigo (Anapo), Marcelo Soncini.

Giachini alerta para a diminuição da eficiência dos produtos de controle e manejo da ferrugem asiática. “A solução é adotarmos o manejo de resistência, que inclui controle cultural, cultivares resistentes, fungicidas com diferentes modos de ação, cultivares precoces, controle de plantas voluntárias de soja remanescentes e o vazio sanitário".

A próxima reunião do GTA-Latam será neste segundo semestre, na Bolívia.

EM MATO GROSSO, GRÃO TEM ALTA QUALIDADE

Um aspecto que as ameaças fitossanitárias não modificaram na sojicultura mato-grossense é a qualidade nutricional do grão colhido nos campos estaduais. Os teores de proteína e de óleo dos grãos de soja variam em função do ambiente, do genótipo e da interação destes fatores.

Na soja, o teor de proteína pode atingir 40%, enquanto, nas demais leguminosas, o valor mais comum é de 20% a 25%. Em Mato Grosso, nos últimos dez anos, a média tem sido 37,7% de teor de proteína bruta – um resultado que supera em 2,6% a média norte-americana registrada no mesmo período pelo United States Soybean Export Council (USSEC).

O dado resulta de uma pesquisa realizada pela Aprosoja em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) no ciclo agrícola de 2006/07 até hoje. O objetivo principal é investigar a qualidade dos grãos de soja produzidos em Mato Grosso no que diz respeito tanto à nutrição, quanto aos aspectos físicos – que são um fator crítico para a comercialização.

Outro dado obtido pela pesquisa que aponta para a alta qualidade da soja mato-grossense é a média do teor de Extrato Etéreo (EE) – a gordura bruta do grão. Nas últimas dez safras agrícolas em Mato Grosso, a taxa média foi de 20,8%, indicador que também supera a performance de 18,7% registrada nos Estados Unidos no período de 1986 a 2015 pelo USSEC.

O aumento nos teores médios de proteína e óleo no grão de soja mato-grossense agrega valor ao produto e é um importante argumento de venda da soja brasileira no mercado mundial. O Brasil é o segundo maior produtor mundial de soja. Somente o estado de Mato Grosso corresponde a 9% da produção mundial do grão: foram 31,2 milhões de toneladas colhidos na safra 2016/17, conforme dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA).

“A renovação de materiais genéticos, que priorizam a precocidade do ciclo da soja e sua produtividade, pode ser um dos fatores que contribuíram para que os teores de proteína bruta e extrato etéreo se alterassem ao longo das safras", observa Nelson Piccoli, coordenador da Comissão de Pesquisa e Gestão de Propriedades e segundo diretor financeiro da Aprosoja.

Atualmente, além da análise sobre a qualidade intrínseca do grão de soja, a Aprosoja e a UFMT retomaram os estudos das características físicas, sanitárias e nutricionais dos grãos de milho produzidos em Mato Grosso. “O levantamento será fundamental para identificar os problemas relatados por nossos agricultores sobre a qualidade dos grãos na colheita e na pós-colheita", explica Cristiane Sassagima, gerente de Pesquisa e Gestão de Propriedades da Aprosoja.

Os resultados da pesquisa podem ser usados em futuras negociações dos agricultores com indústrias processadoras e multinacionais. “É comum que essas empresas deem descontos no preço do grão a partir de critérios próprios de classificação, que, muitas vezes, não condizem com a real condição do produto", observa Maria Aparecida Caneppele, professora da Faculdade de Agronomia, Medicina Veterinária e Zootecnia (Famevz), da UFMT, doutora em Ciências Biológicas (Entomologia) e coordenadora da pesquisa.

As coletas realizadas em campo serão analisadas quanto à condição física dos grãos (avariados), à massa específica e à presença de aflatoxinas (B1, B2, G1 e G2). O trabalho será feito de forma regionalizada e estratificada a partir de dados de área plantada, produção e produtividade da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do IMEA.

PARCERIA COM IDH AMPLIA SOJA PLUS EM MATO GROSSO

A Aprosoja assina em julho o contrato de parceria com a entidade holandesa Iniciativa para Comércio Sustentável (IDH) para ampliar o programa Soja Plus em 2017. A parceria consiste no desenvolvimento de um projeto piloto de restauro de Áreas de Preservação Permanente (APPs) degradadas em propriedades rurais do estado.

O risco da resistência

Desenvolvido em 2011, em uma parceria entre a Aprosoja e a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE), o programa Soja Plus é gratuito aos agricultores e tem por finalidade a melhoria contínua das condições sociais, de trabalho e ambientais nas fazendas produtoras de soja. Nesses seis anos de existência do programa, 1.122 agricultores aderiram a ele, totalizando 1,7 milhão de hectares de área plantada em Mato Grosso.

Piccoli explica que o projeto piloto com a IDH começará em Sorriso, na região norte de Mato Grosso, e abrangerá propriedades no seu entorno (aproximadamente um raio de 80 quilômetros). Sorriso é o município com maior área plantada de soja no estado, respondendo por 1% da produção mundial do grão.

“A princípio, a meta é orientar e incentivar que 200 propriedades em oito municípios da região recuperem áreas de preservação ambiental que estejam degradadas em suas propriedades", afirma Piccoli.

Para aderirem ao projeto piloto, os agricultores deverão estar inscritos no Soja Plus ou se inscreverem no momento da adesão. Na prática, isso equivale a produtores rurais que já foram qualificados em cursos ofertados pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (SENAR-MT) sobre legislações trabalhista e ambiental, que adotam ferramentas de gestão em suas propriedades e que já foram visitados por supervisores de projetos da Aprosoja.

“Periodicamente, realizamos revisitações nas fazendas para registrarmos o status de adequação de cada participante aos preceitos do programa. Nosso checklist soma mais de 180 indicadores que precisam ser mantidos atualizados", explica Sassagima.

A efetividade do Soja Plus tem sido reconhecida pelo mercado internacional. Em março de 2016, o governo chinês reconheceu o programa como “passaporte" da soja sustentável. No início deste ano, foi a vez da União Europeia, por meio da Federação Europeia dos Fabricantes de Rações (FEFAC), da Federação Europeia de Óleo Vegetal e Proteínas (FEDIOL) e da IDH.

“Em todas as nossas missões internacionais e nas visitas que recebemos de representantes de outros países, fica claro o interesse em manter relações comerciais com os agricultores que integram o Soja Plus. O programa vem sendo visto como uma importante chancela da soja brasileira mundo afora", afirma o presidente da Aprosoja, Endrigo Dalcin.

Além de fomentar, nos agricultores mato-grossenses, a busca pela melhoria contínua em suas propriedades, o programa Soja Plus dissemina conceitos de gestão sustentável e responsável. A presença de supervisores de campo – funcionários da Aprosoja com formação técnica – no cotidiano das fazendas acaba suprindo a carência da extensão rural brasileira, apoiando e orientando o produtor. Em Mato Grosso, 52% dos sojicultores associados à Aprosoja plantam em uma área de até 1.000 hectares, o que os torna, para os padrões do estado, produtores de pequeno e médio portes.

“Funcionamos como um elo que integra o agricultor com outros agentes da cadeia produtiva, com o setor público e a sociedade. Começamos com um diagnóstico do status da propriedade, identificando as adequações que precisam ser feitas sob o prisma da legislação. Desse contato direto com o produtor, sai uma forma de trabalho que resulta em um amadurecimento da gestão da propriedade", analisa Sassagima.

Além de “entrar" nas propriedades, o programa Soja Plus leva qualificação para os participantes. Os cursos do SENAR-MT são realizados seguindo um calendário, e o objetivo é alinhar preceitos, exigências e normas legais que precisam ser seguidos pelos agricultores.

“Os cursos atingem um público maior, porque são abertos a todos os produtores, técnicos ou gestores rurais", informa a gerente da Aprosoja. Em seis anos de programa, já foram qualificadas 2.093 pessoas em todo o estado.

GESTÃO ECONÔMICA

Outra novidade do programa para 2017 é a inclusão do projeto Referência em seu escopo de trabalho. Lançado em 2007 para ajudar os associados da Aprosoja com a gestão econômico-financeira de suas propriedades, o Referência apresenta um exercício de benchmarking entre agricultores que ajuda muito na tomada de decisão.

“Agora, quem participar do Soja Plus poderá aderir automaticamente ao Referência. Em nossa visão, o conceito de sustentabilidade inclui a viabilidade econômica da propriedade. Afinal, muitas das adequações exigidas pelas leis brasileiras têm impacto financeiro para o produtor", observa Piccoli.

ALCANCE NACIONAL

O programa Soja Plus nasceu em Mato Grosso, mas, hoje, a iniciativa também pode ser encontrada em Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Bahia. No total, nestes quatro estados, há 1.322 propriedades integradas, que produzem 7,2 milhões de toneladas de soja. Os investimentos somam R$ 14 milhões desde 2011, e mais de 2,3 milhões de hectares de soja foram verificados pelas equipes do programa.

As metas para 2017, em âmbito nacional, incluem ampliar de 5,1 mil para 7,0 mil o número de produtores treinados nos cursos, e de 1,3 mil para 2,0 mil o número de fazendas que receberão assistência técnica.

O risco da resistência

A Aprosoja e a ABIOVE também pretendem levar o programa para Goiás e Maranhão, quarto e décimo produtores de soja do País, respectivamente.