Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Macroeconomia

Ruídos políticos

Julho de 2017

DESDE O início do ano, a economia brasileira começou a dar mostras de melhora, trazendo uma perspectiva um pouco mais otimista para o médio prazo.

De fato, a inflação tem caído sistematicamente desde o segundo semestre de 2016, e tudo indica que fecharemos este ano com uma inflação abaixo da meta de 4,5%. Isso representa um grande ganho para a nossa economia, dado que não ocorre desde 2009. A tolerância com patamares cada vez mais elevados de inflação até 2015 trouxe danos consideráveis ao sistema econômico brasileiro, acentuando a desordem na estrutura produtiva e social do País.

Os bons resultados no campo inflacionário abriram caminho para a flexibilização da política monetária, o que permitiu que o Banco Central cortasse a meta da taxa básica de juros – Selic – ao longo de 2017. Tudo indica que a trajetória de queda da taxa de juros, confirmado o cenário da inflação, será mantida até o final do ano.

A flexibilização dos juros tem sinalizado positivamente para a atividade econômica. A queda dos juros permitiu uma melhora das condições de crédito, abrindo espaço para uma retomada do consumo das famílias e dos investimentos produtivos mais adiante. De fato, os sinais acerca do ritmo da atividade no País já apontam para uma relativa acomodação, o que indica que o ciclo recessivo, iniciado em 2014, pode estar aproximando-se do seu final.

O calcanhar de aquiles da economia brasileira, no entanto, continua sendo o lado fiscal. A política econômica praticada ao longo do governo Dilma gerou um profundo desajuste nas contas públicas brasileiras. O déficit nominal do setor público tem se situado em torno de 9% a 10% do Produto Interno Bruno (PIB) ao longo dos últimos anos, condicionando uma trajetória de endividamento do setor público potencialmente explosiva no médio prazo caso nada seja feito. Nesse sentido, o governo Temer passou a corrigir o rumo da política fiscal, tentando impor limites aos gastos públicos e eliminando benefícios fiscais indevidos. A proposta da reforma da previdência enviada ao Congresso pelo Executivo, ainda que não solucione inteiramente o problema do déficit previdenciário, representa um passo correto na direção de um ajuste das contas do sistema.

Nesse sentido, o contexto relativamente otimista dos primeiros meses de 2017 apontava para uma melhora, ainda que em bases graduais, da economia brasileira. Tudo indicava que a recuperação econômica consolidar-se-ia no segundo semestre do ano, alinhada com as reformas estruturais essenciais para a nossa economia.

Em meio a esse cenário, a onda de denúncias envolvendo o governo representou um balde de água fria no otimismo que começava a se delinear na economia brasileira. A turbulência política instaurada após as denúncias azedou o ambiente do Parlamento, tornando muito mais difícil e custosa para o governo a aprovação das reformas.

Logicamente, esse evento foi rapidamente apreçado pelo mercado financeiro, que realinhou os preços dos ativos em função do maior risco percebido pelos investidores.

A sucessão de denúncias, indubitavelmente, colocou o governo Temer em uma posição defensiva, lutando continuamente para sobreviver a cada novo evento envolvendo o presidente ou membros ligados ao governo.

Do ponto de vista econômico, a questão central passou a ser qual é o real impacto sobre a recuperação da atividade econômica oriundo do caos político instalado em Brasília.

Sem sombra de dúvida, a percepção de risco sobre a economia brasileira aumentou a partir do surgimento das denúncias. Isso decorre do fato de que a efetivação da aprovação das reformas ficou mais distante. Obviamente, o cenário para a retomada de investimentos também ficou um pouco mais comprometido a partir das incertezas no campo político.

No entanto, parece que o lado real da economia não foi tão duramente afetado pela crise política. As indicações iniciais são de que os impactos sobre as vendas foram relativamente limitados, não havendo sinais de uma queda abrupta da atividade econômica neste momento. Nesse contexto, aparentemente, os agentes parecem ter descolado relativamente o ambiente econômico do cenário político turbulento (até mesmo porque as diretrizes de política econômica foram preservadas mesmo em meio ao caos em Brasília).

Em suma, a despeito do ambiente político nacional turbulento, a economia segue recuperando-se, ainda que de forma mais lenta do que o previsto no início do ano.