Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Açúcar

Balanço mundial permanece em estado de atenção

Julho de 2017

O BALANÇO oferta-demanda do mercado mundial de açúcar é definido, todos os anos, pela diferença entre produção e consumo de cada país entre 1o de outubro e 30 de setembro, período que se convencionou denominar ano comercial. Esta convenção, estabelecida no início do século passado, segue o calendário de produção dos países do hemisfério Norte. O acompanhamento e as estimativas sobre o balanço requerem uma avaliação cuidadosa dos volumes de produção e consumo de cada país, levando em consideração os períodos de safra de cada um, o que nem sempre ocorre no período convencionado. Isso faz com que seja necessária a avaliação mensal de produção e consumo de cada país, para que todos os dados sejam normalizados para o período outubro-setembro. Além disso, é preciso que as produções e os consumos realizados na forma de açúcares de qualidades diferentes sejam normalizados para um mesmo padrão, e usualmente é adotado o do açúcar cru equivalente, com 96º de polarização.

Tomando esse cuidado, a DATAGRO, assim como outras instituições de pesquisa, empresas comerciais exportadoras e consultorias, há anos vem realizando avaliações sobre o balanço mundial e os fluxos de comércio. Estas avaliações servem para balizar o mercado e ajudam a compreender o comportamento e a formação de preços nos mercados de futuros.

Depois de cinco anos consecutivos de excedentes de oferta no período de 2010/11 a 2014/15 (outubro a setembro), deve ser registrado, nos anos de 2015/16 e 2016/17, o maior déficit consecutivo da história. Em 2015/16, segundo avaliação, o consumo mundial superou a produção em 7,54 milhões de toneladas de açúcar cru equivalente. No ano comercial 2016/17, que encerra em 30 de setembro próximo, a estimativa é de déficit de 7,85 milhões de toneladas. A soma destes dois anos de déficit deve fazer com que a relação estoque/consumo mundial caia de 47,7%, em 30 de setembro de 2015, para 37,7%, em 30 de setembro de 2017. Considerando que, em 30 de setembro, os estoques de açúcar em todos os países do hemisfério Sul estejam perto do seu nível máximo, e que na atualidade a maior parte da produção mundial ocorre exatamente neste hemisfério do globo, na nossa avaliação, um percentual abaixo de 40% indica que o mercado está relativamente apertado.

A formação de preços procura, via de regra, identificar qual é o preço de oportunidade do fornecedor marginal, isto é, qual é o preço de oportunidade da tonelada marginal que será necessária para atender o mercado.

O Brasil é o produtor e o exportador mais importante, e de maior peso, no mercado mundial, mas nem sempre é o fornecedor marginal. Os produtores brasileiros têm uma considerável flexibilidade industrial. Na safra 2016/17 – que, na região Centro-Sul, transcorreu de abril de 2016 a março de 2017 e, na região Norte-Nordeste, iniciou-se em 1o de setembro de 2016 e ainda está em curso, mas com produção já encerrada –, o mix de produção para açúcar foi 6% maior do que na safra anterior, em resposta ao estímulo de preços do mercado mundial. Mesmo aumentando sua produção, o Brasil não foi capaz de aplacar o déficit mundial.

Para o ano comercial de 2017/18 (outubro a setembro), a DATAGRO estima, atualmente, um mercado mundial em virtual equilíbrio, com um déficit de apenas 194 mil toneladas. Isso significa que a relação estoque/consumo vai se manter praticamente inalterada, devendo encerrar, em 30 de setembro de 2018, em 36,9%. Esta estimativa contrasta com estimativas divulgadas por outras instituições, que têm apontado superávits que variam de 2 milhões a 5 milhões de toneladas. Se esta estimativa se confirmar, significa que, apesar de o Brasil continuar constituindo a base do mercado livre, a tonelada marginal não deverá vir do Brasil. Tudo indica que esta tonelada marginal deverá vir do açúcar de beterraba da Europa, ou do açúcar de cana da Índia ou da Tailândia. Se isso ocorrer, e os agentes de mercado chegarem a essa mesma conclusão, a descoberta de preço provavelmente não deverá estar relacionada ao preço de oportunidade do açúcar no mercado brasileiro, que é determinado pelo preço do etanol, anidro ou hidratado, em açúcar equivalente. Essa é uma constatação relevante e que irá determinar o futuro do preço do açúcar e, também, dentro de certos limites, o do etanol, no mercado brasileiro. Será, portanto, interessante acompanhar os principais fundamentos do mercado mundial, para que entendamos como deve evoluir o interessantíssimo mercado de açúcar.