Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

PIB das atividades agropecuárias

Forte expansão, mas com transbordamentos limitados

Julho de 2017

NO INÍCIO do mês de junho, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os números do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2017. Embora já fosse esperado um forte crescimento das atividades agropecuárias, o número oficial surpreendeu até os analistas mais otimistas: ao longo do primeiro trimestre deste ano, o setor cresceu 13,4%, quando comparado com o trimestre anterior (quarto trimestre de 2016), e 15,2%, quando comparado com o mesmo trimestre do ano passado (primeiro trimestre de 2016). Isso significa que, independentemente de qual seja a base de comparação, o crescimento do setor foi muito robusto, alcançando a marca de dois dígitos.

A robusta expansão do setor ao longo do primeiro trimestre contribuiu fortemente para que o Brasil, finalmente, encerrasse a maior recessão técnica da sua história. Os economistas chamam de recessão técnica quando a economia encolhe por dois trimestres ou mais de forma consecutiva. Como, no primeiro trimestre deste ano, a economia brasileira voltou a crescer (1,0% em comparação com o quarto trimestre de 2016), em termos técnicos a mais longa e mais profunda recessão de que se tem registro no Brasil (já durava oito trimestres), finalmente, chegou ao fim.

PIB das atividades agropecuárias

Embora as atividades agropecuárias não tenham sido o único setor que contribuiu para o fim da recessão técnica, pois a indústria também cresceu (0,9%), o universo agro foi o grande responsável pela expansão da economia no primeiro trimestre. De acordo com a decomposição do crescimento do PIB feita pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos da FGV (CODACE), dessa expansão de 1,0% do PIB no primeiro trimestre, as atividades agropecuárias responderam por 0,8%, enquanto a indústria respondeu pelo 0,2% restante. Como o setor de serviços ficou estagnado ao longo do período, por um lado, não contribuiu para a expansão do PIB, porém, por outro, também não empurrou a economia para baixo. Em outras palavras, sem o forte crescimento das atividades agropecuárias, a economia brasileira teria crescido apenas 0,2%, e não o 1,0% registrado pelo IBGE.

AS ATIVIDADES AGROPECUÁRIAS PUXARÃO A ECONOMIA BRASILEIRA PARA FORA DA CRISE?

Embora as atividades agropecuárias estejam dando grandes contribuições para a economia brasileira – entre as quais, (i) a dinamização da economia pelo interior do País (isto é, fora das principais regiões metropolitanas), (ii) o auxílio na desaceleração da inflação, (iii) a atração de divisas via exportações e, principalmente, (iv) o exemplo de que o segredo para o crescimento de médio e longo prazos é a busca incessante por maior produtividade –, não é por meio do nosso setor que o Brasil sairá da crise. Apesar dos grandes avanços promovidos pelo universo agro ao longo das últimas décadas, não parece que as atividades agropecuárias (ou até mesmo o agronegócio como um todo) tenham força para, sozinhas, tirarem a economia do buraco.

Os números divulgados pelo IBGE no início de junho voltaram a deixar esse ponto claro. Comparando com o primeiro trimestre de 2016, a economia brasileira contraiu 0,4% ao longo do primeiro trimestre de 2017. Por trás desta contração, houve uma fortíssima expansão das atividades agropecuárias de 15,2% e a contração de 1,1% e de 1,7% da indústria e dos serviços, respectivamente. Ou seja, mesmo com as atividades agropecuárias crescendo espetaculares 15,2%, isso não foi suficiente para compensar a contração moderada da indústria de 1,1% ou para aquecer o setor de serviços.

Na realidade, essa mesma conclusão já estava presente nos números apresentados na seção anterior deste artigo, quando discutimos a composição do crescimento de 1,0% do PIB brasileiro no primeiro trimestre em comparação com o quarto trimestre de 2016. Enquanto, de um lado, a forte expansão de 13,4% das atividades agropecuárias gerou um crescimento de apenas 0,8% no PIB, o pequeno avanço de 0,9% da indústria (notadamente na indústria extrativista de minérios e petróleo bruto) gerou um crescimento de 0,2% no PIB (uma vez que o setor de serviços ficou estagnado). Em outras palavras, mantidas as mesmas proporções, é como se o efeito multiplicador dessas indústrias fosse quase quatro vezes maior do que o das atividades agropecuárias.

Enfim, o setor agro já tem dado grandes contribuições para a economia brasileira. Porém, ele sozinho não conseguirá tirar a economia brasileira do atoleiro. A economia brasileira só voltará a crescer realmente quando, de um lado, a indústria se recuperar e, de outro, quando for possível ver esta recuperação do lado do consumo das famílias. Infelizmente, a forte contração dos investimentos ainda observada ao longo do primeiro trimestre de 2017 sugere que temos um longo caminho pela frente.