Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Diário de bordo

Brexit e globalização

Agosto de 2016

ROBERTO RODRIGUES - Colunista

ROBERTO RODRIGUES, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (GV Agro)

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AS CONSEQUÊNCIAS da saída do Reino Unido da União Europeia (UE) ainda não estão perfeitamente identificadas e medidas. A soberana decisão do povo inglês não foi uma completa surpresa, mas criou uma perplexidade estonteante no Velho Continente e no mundo: tal povo simplesmente não queria ser governado por um Conselho Europeu que não elegeu.

O que vai acontecer em seguida? Outros países pensarão em sair também, seguindo a solução britânica? Farão consultas populares? Como fica a situação da Escócia? Ninguém sabe.

Alguns reflexos – ainda muito inconsistentes – podem orientar outras nações do bloco para além das muitas incertezas. Por exemplo: as empresas sediadas na Grã-Bretanha terão ainda acesso garantido aos demais cidadãos europeus? Ou os governos dos países remanescentes criarão dificuldades para isso, até mesmo para desestimular outras defecções?

O fato real é que a libra esterlina já perdeu valor, bem como as ações no mercado. Como vai ficar a taxa de câmbio? E os juros? O fluxo de capital para o Reino Unido vai diminuir? Se isso acontecer, como será financiado seu déficit em conta-corrente? Quem perde mais com isso? O consumo deverá cair, freando a produção e, até mesmo, o comércio? Tantas questões intrigantes!

Mas, afinal, o que está mesmo por trás dessa confusão toda? Alguns analistas têm afirmado que, no fundo, o que existe é um medo difuso da globalização, porque esta implica maior concorrência e, portanto, mais insegurança. Com isso, sociedades inteiras preferem combater o imigrante ou o trabalhador estrangeiro que poderia estar tomando seus empregos. Esquecem-se de que é na competição que a prosperidade beneficia a todos, não no protecionismo. Lembro-me bem de como, no começo das discussões sobre o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), havia um medo da concorrência com os agricultores argentinos, e, agora, está claro que esta competição estimulou nossa capacidade produtiva: ganhamos mais mercados, investindo mais em tecnologia e gestão nas cadeias produtivas do agro.

Seja o que for, hoje é impossível um país isolar-se do resto do mundo, e é lógico que esta não é a posição do Reino Unido. Mas, a Inglaterra demorou vinte anos para se juntar à Comunidade Econômica Europeia e, de certa forma, sempre esteve com um pé-atrás em relação ao bloco, para não dizer com uma ponta do pé fora mesmo...

As razões motivadoras para a formação do bloco europeu depois da Segunda Guerra Mundial – principalmente o sofrido tema da segurança alimentar – já não existem mais. Mas, não existem exatamente porque o bloco cumpriu seus objetivos com eficiência e, também, por causa da famigerada globalização. E, mais: muitos países da antiga Cortina de Ferro, adversários da Europa Ocidental na Guerra, acabaram entrando na UE, foram beneficiados por ela e a beneficiaram.

A realidade do mundo atual, com migrações em massa, com pobreza que precisa ser erradicada na África, na Ásia e no Oriente Médio, com radicalismo religioso e terrorismo, exige dos governos e das organizações multilaterais uma nova visão da globalização, com bem-estar maior para todos. Não há espaço para privilégios ou brutais diferenças sociais, nem dentro dos países, nem entre os países.

Talvez, esse seja o maior legado do Brexit: uma nova globalidade, mais equilibrada e justa.