Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Opinião

Bioeconomia e a agricultura

Agosto de 2016

ARNALDO JARDIM - Colunista

ARNALDO JARDIM, Deputado federal licenciado (PPS-SP) e secretário de Agricultura e Abastecimento do estado de São Paulo

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A AGRICULTURA sempre foi vista como produtora de alimentos. Essa visão deve permanecer, mas acrescida de que queremos alimentos saudáveis. Entretanto, mais do que isso, a agricultura é produtora de fibras e energia. Há, portanto, neste momento que vivemos, um processo de transição das fontes fósseis de energia para uma base renovável, que vem mudando a base da economia mundial, havendo um grande protagonismo da agricultura.

Por séculos lastreada no consumo de recursos fósseis, particularmente alicerçada em petróleo, gás e carvão, a economia está mudando para uma realidade baseada na bioeconomia, ou seja, em fontes renováveis de energia. Isso é estratégico. As mudanças climáticas exigem isso, e, hoje, particularmente a agricultura pode passar a ser grande produtora de energia.

Podemos dizer que o horizonte é positivo. Dados do Ministério de Minas e Energia (MME) apontam que, de 2014 para 2015, a participação das energias renováveis na matriz energética brasileira passou de 39,4% para 41,2%. Os destaques ficam por conta do etanol e do bagaço da cana, com 41,1% desta participação, à frente das hidrelétricas (27,5%), da lenha e do carvão vegetal (19,9%), do biodiesel (2,5%) e da energia eólica (1,5%).

A biomassa, por exemplo, pode ser melhor aproveitada se recordarmos que, em 2009 e 2010, ela chegou a representar cerca de 30% da expansão do setor elétrico. Em 2016, será responsável por 7% e, mantendo as previsões da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), em 2020, representará 3% da expansão. Essas questões foram abordadas em seminário que realizamos nos dias 28 e 29 de junho, na sede do Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA), em Campinas.

Com a participação de palestrantes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Agropolis International, da Natura, da DSM Nutritional Products, do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), da BE-Basic, do Instituto SENAI, do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), da SAA e da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), discutimos o potencial da bioeconomia como uma oportunidade de mudança do sistema baseado na economia fóssil para um sistema baseado em energias renováveis, norteado pela sustentabilidade, mas com uma série de questões a serem superadas.

Também debatemos a equação entre obesidade e desnutrição e como essa nova visão econômica pode influenciar na saúde e na nutrição humanas. A bioeconomia pode possibilitar o desenvolvimento de, por exemplo, maior cuidado da saúde e melhor segurança alimentar por meio de práticas agrícolas sustentáveis.

Falamos sobre iniciativas que fomentam o crescimento da economia local e garantem sustentabilidade e desenvolvimento social. Os convidados abordaram, ainda, pontos importantes como a elevação da temperatura global e suas consequências, os ganhos ambientais e econômicos do potencial das usinas de cana com etanol de 1ª e 2ª gerações e com biomassa.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que, até 2030, o uso das biotecnologias contribuirá com até 35% da produção industrial de químicos, 80% do setor farmacêutico e 50% da produção agrícola. Essa transição garante que a agropecuária entregue não apenas produtos, mas também valor agregado, saúde e preservação.