Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Produzir

Pavimentar o caminho para uma sociedade sustentável

Agosto de 2016

GUSTAVO DINIZ JUNQUEIRA - Colunista

GUSTAVO DINIZ JUNQUEIRA, Presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB)

Outros textos do colunista

AS FORÇAS centrífugas crescentes no mundo aumentam o abismo entre os mais ricos e os menos favorecidos e, também, as assimetrias regionais. A polarização política e a intensificação de migrações expressam essas tendências. Contudo, o Brasil, mais uma vez, encontra-se numa posição privilegiada.

O ser humano precisa, sobretudo, de comida, e provê-la é uma vocação natural do Brasil. Mesmo com as surpresas que o avanço tecnológico traz ao setor, possuiremos vantagem competitiva na produção de alimentos por algumas décadas. Como no caso do bônus demográfico, o País dispõe de uma janela de oportunidade para manter e aumentar sua posição como um dos líderes na produção de comida, fibras e combustíveis renováveis.

Diferente dos setores da Indústria e de Serviços, concentrados nas megametrópoles da área costeira, o Agro acontece, essencialmente, no interior, em regiões do enorme espaço geográfico dos biomas do Cerrado e da Amazônia. Nessa frente agrícola e de reserva ambiental, a densidade populacional varia entre 2 e 15 habitantes por quilômetro quadrado, enquanto a faixa costeira e alguns estados do Sul contam com 50 a 500 pessoas por quilômetro quadrado.

O setor agropecuário, reforçado pela exploração do grande potencial da biodiversidade, representa a âncora do País, não apenas em geração de riqueza e emprego de forma descentralizada, mas como modelo de convivência mais pacífico. Os 15% dos brasileiros que produzem alimento para 85% dos conterrâneos asseguram o saldo positivo do balanço de pagamento, combinado com menor pressão sobre o novo modelo de convivência da sociedade, e atribuem ao Brasil rural o papel de preservador da unidade nacional.

Os efeitos articulados da Biotecnologia, da Nanotecnologia e da Tecnologia da Informação estão provocando rupturas nos sistemas de produção e, por consequência, na composição do poder na sociedade. A automação, que já expulsou milhares de trabalhadores das fábricas e começa a ameaçar até profissionais mais qualificados da área de Serviços, chegará ao Agro mais lentamente e com efeitos menos dramáticos. Enquanto a população rural nos EUA e na Europa oscila entre 2% e 4%, este índice no Brasil deve recuar dos atuais 15% para 7% a 8% nos próximos quinze anos, e, provavelmente, deve haver uma terceira onda migratória nesse período.

Com a industrialização e a construção das metrópoles, milhões de jovens do Norte e do Nordeste mudaram-se para a área costeira. Numa segunda onda, jovens agricultores migraram dos estados do Sul para a frente agrícola, cuja produção, hoje, sustenta a economia e as contas externas. Considerando o estresse urbano e a queda das oportunidades profissionais e empreendedoras nas grandes cidades, possivelmente jovens acadêmicos e técnicos das áreas de Agronomia, Mecânica, Computação, Saúde e Educação vejam as vantagens do interior, cada vez mais urbanizado, com acesso a quase todo tipo de serviços e conectividade que caracterizam a vida urbana.

O Brasil rural pode ser o novo Brasil que todos, neste momento de reconstrução, estão almejando. Produção, renda, qualidade de vida e a tradicional cidadania da vizinhança em regiões do interior são atrativos que os jovens descobrirão em breve, para iniciar a terceira onda de migração, na contramão do chamado êxodo rural.