Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O agronegócio é o seguinte

Protagonismo e liderança nos acordos internacionais

Agosto de 2016

MAIS DO que nunca, o Brasil está provando que a economia está muito longe de ser uma ciência exata. A mudança de comando político e econômico alterou totalmente as expectativas dos principais atores. Como a Agroanalysis vem sugerindo, temos inflação em queda, juros também com tendência de redução (o ano seguramente encerrará com uma Selic menor) e câmbio flutuando entre R$ 3,25 e R$ 3,50 por dólar.

Imediatamente após a provável confirmação do impeachment de Dilma Rousseff, Michel Temer irá apresentar as reformas da previdência e trabalhista. As chances de aprovação são grandes. A recente votação para a presidência da Câmara dos Deputados mostrou algum progresso em termos de compromissos mais sérios com a economia e o País.

Com a melhora do quadro brasileiro, há tendência de grande entrada de dólares, o que, em tese, valorizaria o real. Mas, como a balança comercial é peça fundamental da melhora do quadro – vamos reduzir nosso déficit de transações correntes de US$ 100 bilhões, em 2015, para perto de zero, neste ano! –, o BACEN tenderá a intervir para segurar o câmbio na faixa anteriormente mencionada. Vale lembrar que o risco Brasil vem caindo bastante, exatamente em função de todo esse conjunto. No final de julho, o País fez captação de recursos no exterior ao custo de 5,875% ao ano, quase a mesma taxa de quando o País ainda tinha grau de investimento. No final do governo Dilma, a taxa chegou a 8% ao ano! Finalmente, vale dizer que há grande esforço para destravar os investimentos em infraestrutura.

É interessante olhar com atenção para o impacto da variação cambial nas commodities agropecuárias. Combinando uma maior possibilidade de trajetória moderada do dólar com a variação das projeções do preço das commodities para a safra 2016/17, a variação entre preços mínimos e máximos em reais para algodão, milho, soja e trigo pode chegar a 50%!

O café é outro exemplo emblemático do impacto do câmbio sobre o agronegócio. O produto foi beneficiado com a desvalorização do real frente ao dólar. A situação já esteve melhor com o câmbio a R$ 4,00, mas, apesar de ter ocorrido uma valorização do real, a conjuntura ainda continua boa durante a atual colheita na cafeicultura.

No balanço do primeiro semestre de 2016, os grãos brilharam dentre os principais produtos agrícolas e pecuários. O milho teve a maior valorização no mercado brasileiro. Foi um resultado inusitado. Considerando a região de Campinas, em São Paulo, o preço da saca de 60 quilos subiu 91,8%, frente ao mesmo período do ano passado. Logo na sequência, apareceu a soja, com alta de 25,2% no semestre. Além de pesarem nos custos de produção da pecuária, o milho e a soja valorizados puxaram para cima os preços dos alimentos alternativos, como o sorgo e a polpa cítrica, entre os energéticos, e o farelo e o caroço de algodão, entre as fontes proteicas.

Quanto ao Plano Agrícola e Pecuário (PAP) da safra 2016/17, a quantidade de crédito rural sofreu mudança. Em maio deste ano, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) havia anunciado R$ 202,88 bilhões para os financiamentos de custeio, investimento e comercialização. Este valor, no entanto, teve um ajuste para baixo, tendo sido reduzido a R$ 185,00 bilhões. Esta baixa decorre do redimensionamento dos recursos captados pelas Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) para a safra 2016/17 (julho de 2016 a junho de 2017). O tamanho estimado ficou menor em R$ 17,8 bilhões quando se toma por base a safra 2015/16.

Muito importante foi a Medida Provisória (MP) nº 725, que introduziu uma importante alteração nas regras sobre a emissão de dois títulos: o Certificado de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCA) e o Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA). Ambos, agora, poderão ser emitidos com cláusula de correção pela variação cambial, desde que negociados com investidores não residentes no País. Na condição de grande exportador de produtos agrícolas, uma das reinvindicações antigas do agronegócio constitui-se na criação de mecanismos para atrair investidores estrangeiros e incentivar a captação de recursos via mercado de capitais.

Em termos de negociação internacional, é notória a paralisia do Brasil. Há doze anos, o País esteve na liderança de negociações internacionais, com protagonismo na Rodada Doha, na discussão da Área de Livre-Comércio das Américas (ALCA) e no acordo com a União Europeia. Mas, nenhuma das iniciativas foi concretizada, e, atualmente, existem vários acordos bilaterais celebrados ao redor do globo sem a participação brasileira. Cerca de 40% do comércio mundial atual dão-se com bases estabelecidas em acordos bilaterais. É grave e impactante a ausência do Brasil nestas negociações, sobretudo olhando para uma agenda de longo prazo.

No caso do acordo Transpacífico, firmado em outubro de 2015 entre doze países banhados pelo Oceano Pacífico, sua relevância no mercado de commodities agrícolas é significativa em qualquer comparação, seja de oferta ou demanda. Os países-membros do bloco são bastante ativos no comércio global, com uma participação acima de 30% na exportação e na importação mundial de várias commodities. O consumo doméstico é robusto, também, na comparação global, sobretudo em suco de laranja, milho, carne de frango, carne de boi, café e produtos lácteos.

Para terminar, temos o Caderno Especial da Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo), que a Agroanalysis edita pela sétima vez. Na segunda metade do século passado, tivemos o salto em Genética – variedades mais produtivas e resistentes a doenças – e o desenvolvimento tecnológico de outros insumos, como defensivos e máquinas. Mais recentemente, desde meados do decênio passado, a Nutrição começou a fazer a diferença. O conteúdo registra o leque de ações levado a cabo pela entidade, dentre as quais se destaca a pesquisa de mercado das empresas do setor.