Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Macroeconomia

Em banho-maria

Agosto de 2016

OS PRIMEIROS passos do governo Temer em termos de política econômica foram na direção de sinalizar minimamente o resgate da credibilidade dela no controle da inflação, diminuir o descontrole das contas públicas e evitar intervencionismos excessivos do Estado em determinadas áreas da economia brasileira.

Analisando esse fenômeno a partir de um espectro que já remonta a alguns meses, pode-se dizer que o governo, ainda que de forma interina, foi bem-
sucedido em restabelecer alguma credibilidade em termos da condução da política econômica. A guinada de 180 ° em termos do que vinha sendo praticado no governo Dilma no que se refere à condução da economia brasileira foi fundamental nesse processo.

Note-se que os problemas econômicos que estavam presentes no governo Dilma foram herdados pelo governo Temer e ainda são verificados na nossa economia. Nesse sentido, as contas públicas seguem deficitárias, e tudo indica que, neste ano, o resultado primário apresentará um saldo significativamente negativo. Ao mesmo tempo, a inflação ainda segue elevada, com o resultado acumulado em doze meses ainda em torno de 10%. A recessão econômica ainda persiste na nossa economia, com o PIB devendo registrar nova queda em 2016, em torno de 4%. O desemprego segue em alta, registrando patamares bem mais elevados do que no ano passado.

Apesar disso, existem indicações de que a confiança de consumidores e empresários tem aumentado recentemente. Este fenômeno tem sido destacado em sondagens realizadas por diferentes institutos de pesquisa nos últimos meses.

A recuperação da confiança em um ambiente econômico delicado como o atual ocorre, claramente, em função das mudanças de orientação em termos de política econômica do governo atual. Embora as questões não estejam inteiramente equacionadas, o sentido do ajuste na economia e a prática de uma política econômica minimamente mais responsável têm contribuído para reverter as expectativas quanto ao futuro da economia brasileira.

Outro aspecto que tem contribuído para melhorar a confiança diz respeito ao restabelecimento das relações do governo junto ao Congresso Nacional. Nesse sentido, o governo Temer conseguiu avançar algumas questões fundamentais junto à Câmara e ao Senado. Desta forma, pode-se dizer que o Executivo conseguiu estabelecer elos junto ao Congresso que conferiram maior governabilidade.

Do ponto de vista analítico, pode-se dizer que a reorientação da gestão da política econômica, aliada ao restabelecimento das relações do Executivo com o Congresso, permitiu uma reversão no quadro de deterioração das expectativas em torno da economia brasileira. Esse fenômeno, no curto prazo, tem contribuído para consolidar um quadro de que “o pior ficou para trás”. Não sem razão, as projeções para a economia brasileira indicam uma acomodação em termos de atividade econômica e queda da inflação.

O sucesso no curto prazo, no entanto, tem se limitado a ações no escopo mais conjuntural. Em outras palavras, até o momento não foram procedidas mudanças estruturais importantes na economia brasileira. Nesse sentido, elementos como a reforma da previdência, a reforma tributária, a reforma trabalhista etc., embora tenham entrado no radar do governo, ainda não apresentaram avanços concretos. Ao que tudo indica, o governo Temer ainda aguarda a consolidação do processo de impeachment e deixar de ser um governo interino para colocar, de fato, essas questões em pauta.

Nesse sentido, os agentes econômicos, aparentemente, deram um voto de confiança ao governo Temer neste momento, o que tem se traduzido em um aumento da confiança em termos das perspectivas da economia brasileira. Apesar disso, as questões de médio e longo prazos ainda não foram equacionadas – longe disso. Obviamente, espera-
se que o governo encaminhe de forma adequada estas questões mais adiante. Isso significa que o bem-estar proporcionado no curto prazo pode esvair-se no médio e no longo prazos se nada for feito. Desta forma, espera-se que o governo Temer avance nestes pontos nos próximos meses. Caso contrário, corre sério risco de enfrentar um cenário de deterioração das expectativas mais adiante.