Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Mudanças na variação cambial

Impacto na cafeicultura

Agosto de 2016

NOS ÚLTIMOS doze meses, a agricultura brasileira viu-se em meio a um grande “sobe e desce" cambial. Em um primeiro momento, houve um período de forte desvalorização na esteira da fragilidade política e econômica brasileira. A taxa de câmbio saltou dos patamares de R$ 3,10/USD, em julho de 2015, para R$ 4,10/USD, em janeiro de 2016 – uma variação de 32%.

Após atingir este pico, o dólar voltou a perder valor frente ao real. A taxa passou a flutuar no intervalo de R$ 3,00/USD a R$ 3,30/USD, com perspectiva de até cair neste segundo semestre. O cenário mudou diante da reversão política com a instalação do governo provisório e a adoção de medidas corretivas pela nova equipe econômica.

Esse quadro de grandes oscilações na taxa de câmbio traz sempre à tona algumas discussões. É o caso, por exemplo, dos impactos que as variações cambiais causam sobre a rentabilidade na produção de commodities agrícolas no Brasil. Nesse sentido, com o intuito de ilustrar tais choques, fizemos uma avaliação adotando como exemplo o caso do café.

Mudanças na variação cambial

Para tanto, estimamos a influência das variações na taxa de câmbio sobre os preços do café e os seus custos de fertilizantes e defensivos. Primeiramente, buscamos entender a formação do preço do café. Levamos em consideração a taxa de câmbio, a relação mundial do estoque em relação ao consumo de café e o ciclo bianual da safra nacional (uma colheita de alta seguida de outra de baixa, e vice-versa) nos últimos quinze anos. O resultado mostrou que uma oscilação de 10% do câmbio provoca uma variação, no mesmo sentido, de 6,2% no valor do café negociado em reais.

A segunda etapa do estudo compreendeu a análise do impacto da taxa de câmbio sobre os dois principais componentes do custo de produção que sofrem influência do dólar: os defensivos e os fertilizantes. Ambos representam, juntos, 32% do custo operacional, o que inclui as despesas administrativas e de vendas. O resultado mostrou que o efeito de uma oscilação de 10% do câmbio implica uma variação, no mesmo sentido, de 4,8% e 7,0%, respectivamente, no valor em real dos fertilizantes e dos defensivos.

Consideramos que os demais custos de produção e administração permaneceram constantes e adotamos esses percentuais, de 4,8% e 7,0%, para calcular o impacto da oscilação do dólar no preço do café. Com a desvalorização de 6% acumulada desde o fim de julho de 2015 até a primeira semana de julho 2016, quando a colheita da planta se inicia, era de se esperar que as margens operacionais, em EBITDA1, subissem 12,85% em relação ao que era esperado antes da desvalorização.

A desvalorização do real frente ao dólar influencia, também, o custo financeiro para os produtores que possuem dívidas em dólares. O impacto é maior nos produtores mais endividados e com parcelas a pagar no curto prazo. Como boa prática de gestão empresarial, o seu endividamento deve, no máximo, ser quatro vezes a sua margem operacional (dívida total dividida pelo EBITDA resultando em valor menor do que quatro) e 40% da dívida devem vencer no longo prazo. Dentro destes limites, o impacto da desvalorização do real nos juros (serviço) e nas amortizações da dívida mantém-se saudável.

É válido ressaltar, também, que é preciso haver um planejamento de fluxo de caixa (as entradas e as saídas dos recursos financeiros) da empresa. Nesse sentido, as desvalorizações cambiais são, em geral, benéficas para as margens operacionais dos cafeicultores. Porém, muita atenção deve ser dada aos limites de endividamento e à estrutura da dívida, para que o custo das contas a pagar (passivo) não dilua a competitividade reforçada pela desvalorização do real.