Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Transpacífico

Importante acordo global para o mercado agrícola

Agosto de 2016

O TRANSPACÍFICO é o primeiro grande acordo comercial concluído nos últimos vinte anos, desde o fim da Rodada Uruguai da Organização Mundial do Comércio (OMC). A edição de novembro de 2015 da Agroanalysis trouxe um artigo sobre o acordo e os possíveis impactos sobre o agronegócio brasileiro. O objetivo aqui é agregar mais algumas informações sobre o acordo com base nos principais dados econômicos do bloco e na participação dele nos mercados de commodities.

O acordo foi firmado em outubro de 2015 entre doze países banhados pelo Oceano Pacífico. Pelo lado da oferta, grandes produtores de alimentos – notadamente Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e Canadá – terão vantagens sobre concorrentes brasileiros em mercados extremamente fechados, como o Japão, e em emergentes com demanda crescente por alimentos, como Vietnã e Malásia, todos partes do acordo. Pelo lado da demanda, tem-se os Estados Unidos como o maior mercado consumidor do Planeta.

Transpacífico

Enquanto os países que compõem o novo bloco dão exemplo de assertividade em questões comerciais, é notória a paralisia do Brasil. Há doze anos, o País esteve na liderança de negociações internacionais, com protagonismo na Rodada Doha, na discussão da Área de Livre-Comércio das Américas (ALCA) e no acordo com a União Europeia (UE). Mas, nenhuma das iniciativas foi concretizada, e, atualmente, existem vários acordos bilaterais celebrados ao redor do globo sem a participação brasileira. Cerca de 40% do comércio mundial atual dão-se com bases estabelecidas em acordos bilaterais. É grave e impactante a ausência do Brasil nestas negociações, sobretudo olhando para uma agenda de longo prazo.

Somados, os países signatários do Transpacífico possuem uma renda nacional de US$ 28,9 trilhões, uma população de 810 milhões de habitantes e uma renda per capita bruta de US$ 35.718 (equivalente à da UE). Os valores da renda bruta e da renda per capita do bloco estão muito acima dos de países importantes como a China e o Brasil, ilustrando a importância deste bloco econômico. Os países que o compõem respondem por cerca de 40% da renda bruta mundial, concentrando 11% da população mundial e uma renda per capita três vezes superior à média mundial.

Transpacífico

No mercado de commodities agrícolas, a participação do Transpacífico é significativa em qualquer comparação, seja de oferta ou demanda. Os países-membros do bloco são bastante ativos no comércio global, com uma participação acima de 30% na exportação e na importação mundial de várias commodities. O consumo doméstico é robusto, também, na comparação global, sobretudo em suco de laranja, milho, carne de frango, carne de boi, café e produtos lácteos.

Espera-se que o Transpacífico crie novos mercados para seus países-membros, com a eliminação de tarifas em países como Japão, Brunei, Vietnã, Malásia e Peru. Um potencial beneficiário desse acordo serão os Estados Unidos, que possuem forte competitividade em vários mercados. Vale ressaltar que, em alguns casos, como nos do Chile, da Austrália, de Singapura e do México, não haverá grandes mudanças em relação ao comércio com os Estados Unidos, pois já existem acordos em andamento.

O Brasil possui participação importante no mercado mundial, seja como produtor ou exportador, para a maioria dos produtos destacados. A assinatura de acordos bilaterais com as nações mais importantes do globo poderia beneficiar, no longo prazo, commodities produzidas pelo País, impulsionando o agronegócio e a geração de emprego e renda. Os acordos bilaterais celebrados pelo Brasil restringem-se, basicamente, ao Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e a algumas iniciativas associadas a este com Peru, México, Cuba, Índia e Israel. Considerando que grande parte do comércio global se dá via acordos bilaterais, tornam-se necessários um maior esforço de acesso a mercados e a criação de acordos comerciais. No longo prazo, os acordos bilaterais poderão fazer diferença, e uma nação que ocupa posição estratégica no comércio agrícola internacional não pode ignorar essa realidade.