Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Diário de bordo

Sucessão no campo

Agosto de 2017

ROBERTO RODRIGUES - Colunista

ROBERTO RODRIGUES, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (GV Agro)

Outros textos do colunista

A EVOLUÇÃO tecnológica da agropecuária brasileira é indiscutível, e há muito pouca gente contestando este fato. Aliás, qualquer cidadão medianamente informado sabe da importância que o setor rural tem para a economia, seja do ponto de vista do suporte para o crescimento do PIB, seja na formação do saldo comercial, seja também no aspecto social – em um momento de dramático desemprego, nos últimos anos o campo continuou empregando. A mídia tem informado adequadamente os números de cada um desses indicadores, de modo que o agro ganhou reconhecimento pelo que vem fazendo, graças, principalmente, à tecnologia tropical sustentável aqui desenvolvida e aplicada e aos mercados dos países emergentes que, até agora, tem sido demandantes de alimentos, energia e fibras.

A campanha "Agro é Pop", da Rede Globo, levada ao ar todos os dias em horário nobre, por sua vez, tem contribuído para mostrar a ligação de qualquer pessoa – mesmo a mais empedernida urbana – com a atividade produtiva rural.

E isso exige, a cada dia, maior profissionalismo no agro, razão pela qual vem ganhando relevância um tema central: a sucessão no campo ou, melhor, sucessão no agronegócio, porque a questão não está localizada apenas nas fazendas, mas também nas associações, nos sindicatos e nas cooperativas agropecuárias.

Nestas entidades de classe, há uma tendência sutil de permanência de lideranças. A dispersão física dos agricultores ajuda para que isso aconteça. Fica difícil participar de assembleias e reuniões, os associados vão se acomodando, e os dirigentes também. O tempo passa, e, de repente, as pessoas se dão conta de que o "chefe" está na cadeira dele há três, quatro ou mais mandatos, sem se preocupar com a sucessão e, muito menos, com a formação de lideranças mais jovens e capacitadas para substituí-lo. Isso não é bom, mesmo que o líder seja muito capaz e faça ótimo trabalho. O rodízio de lideranças é sempre positivo, areja as instituições e traz novas visões e maneiras de enfrentar os desafios.

A reforma trabalhista recém-decidida no Brasil trará alguma turbulência nessa tendência, especialmente nos sindicatos, com a mudança na contribuição sindical.

Mas, é nas fazendas que o tema ainda está demorando para destravar. Não que os veteranos produtores se neguem a incorporar inovações técnicas: eles já sabem que, sem tecnologia, não terão produtividade nem competitividade e ficarão para trás.

O difícil é mudar mecanismos de gestão, tão importantes ou mais do que as novas técnicas. Hoje, não é possível ter sucesso sem gestão comercial refinada, sem gestão fiscal e tributária, sem conhecer custos de produção em detalhes. Gestões financeira, ambiental e de recursos humanos, gestão de risco, tudo isso faz parte do dia a dia de qualquer produtor rural.

E os jovens formados nas faculdades de Ciências Agrárias estão mais esquipados do que os seus antecessores nessas questões. É por isso que é cada dia mais importante montar mecanismos de sucessão no campo. É compreensível que os velhos dirigentes de fazendas se sintam ainda capazes e que terão sempre razão enquanto tudo estiver dando certo, isto é, lucro. Também se entende que não queiram parar. Todos repetem o velho refrão "quem não anda desanda". Por isso, é difícil que entreguem a gestão aos filhos, mas a rapidez das mudanças está exigindo uma sucessão bem organizada no campo.