Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Reflexão

Sonhando alto

Agosto de 2017

LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO - Colunista

LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO, Presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG)

Outros textos do colunista

A cabeça que encontra solução é a mesma que elabora o problema.

Leandro Karnal

ENTRAMOS NO inverno de 2017 otimistas com a produção de grãos e de outros produtos, mas nem tanto com os preços e decepcionados com a sequência de problemas nas cadeias produtivas de carnes. No campo da política, nos encontramos desesperançados com as incertezas do desastre político-partidário brasileiro. A sensação é de atraso nas reformas fundamentais ao País, com um cenário de desavenças no mundo superior da Justiça. As expectativas são de que o processo de limpeza ética e moral não se torne um palco de vaidades, que somente auxilia aqueles que praticam malfeitos.

O inverno do brasileiro vem, também, na sequência de um outono úmido e de péssimas notícias. Nos meses que faltam para a primavera, nossos sonhos desaparecerão, tomados por pesadelos?

O governo brasileiro de transição deveria entregar a correção dos rumos das políticas econômica e energética. O que estaria conseguindo! Para isso, foi fundamental arregimentar a maioria dos parlamentares no Congresso Nacional, base para a aprovação de decisões importantes à recuperação da economia brasileira. Nesse caso, as reformas trabalhista e da previdência seriam excepcionais.

A estratégia de um governo de coalizão às vésperas de um processo eleitoral a se iniciar traz enormes incertezas sobre o curto prazo e pode não responder às mudanças fundamentais que o Brasil necessita. As delações premiadas beiram o insuportável, as prisões são feitas e desfeitas, e o Ministério Público confronta a Constituição.

Dizia Peter Drucker: “a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo”. No campo econômico, se vê a pavimentação correta; no político, assim como no Judiciário, há um ambiente de resiliência e pretensões. Será difícil encaminhar soluções a esses problemas com os poderes em guerra. Segundo o filósofo Mario Sergio Cortella, “todo poder que, ao invés de servir, se serve é um poder que não serve”.

O processo caótico de delações, juízes em confronto com promotores, mídia julgadora e o caminho do vazio leva ao isolamento e pode gerar um novo monstro para 2018. A população brasileira está absolutamente estarrecida com tudo isso.

Esse estado de incertezas dificulta o andamento das reformas, e se corre o risco de matar o velho sem ter o novo!

Sem ser desculpa, não é só no Brasil: um olhar à América do Norte mostra transtornos políticos assim como na América do Sul, enquanto a Europa busca recuperação, o Oriente Médio mostra-se em constante conflito e a Ásia mostra-se sob o comando chinês. Tudo é mudança e incerteza. Agora, a União Europeia estuda com o Japão uma área de livre-comércio!

A todo recuo na evolução brasileira, como o atual, surge a questão: o sonho do progresso, da escalada por uma melhor posição social no Brasil, é, de novo, muito alto?

A ABAG, no planejamento do seu Congresso, realizado em 7 de agosto, teve como objetivo discutir o custo Brasil para o agronegócio, desde a reforma trabalhista até a tributária, com ideias e contribuições para essa finalidade. Não há como pretender investimentos fundamentais ao agronegócio sem um ambiente de maior segurança e visão de longo prazo.

Anteparo a todo esse clima interno brasileiro, a resiliência do agronegócio também possui seus limites. Sonhar que o País consiga manter-se como se vê no agronegócio é, de fato, sonhar alto.