Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

José Botafogo Gonçalves

A agricultura e a formação do brasil

Setembro de 2016

JOSÉ BOTAFOGO GONÇALVES, EX-EMBAIXADOR E VICE-PRESIDENTE EMÉRITO DO CENTRO BRASILEIRO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS (CEBRI)

O diplomata foi ministro da Indústria, do Comércio e do Turismo do Brasil durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Além disso, foi embaixador na Argentina de 2002 a 2004.

AGROANALYSIS: NA HISTÓRIA DA INTEGRAÇÃO TERRITORIAL DO PAÍS, HÁ UMA LIGAÇÃO COM A AGRICULTURA?

JOSÉ BOTAFOGO GONÇALVES: Na sua política de expansão marítima, Portugal tinha como objetivo abastecer-se de matérias-primas, especiarias e metais preciosos de origens asiática e africana. A extração do pau-brasil foi a primeira atividade agrícola no País, embora de caráter puramente extrativo. Já a cana-de-açúcar é o primeiro exemplo de cadeia global de valor ocorrido no hemisfério ocidental, tendo a internacionalização dos elos de produção garantido a competitividade do produto final no mercado europeu.

A história da pecuária bovina foi importante no movimento rumo ao oeste da colonização a partir da costa nordeste, passando pela Bacia do rio São Francisco, até as áreas populacionais ligadas à extração de ouro de Minas Gerais. No final do século XX, veio a vertiginosa expansão da soja. De comum entre esses produtos, havia o mito de o Brasil caminhar para a monocultura, com uma narrativa baseada em preconceitos culturais e políticas apoiadas em pedaços da realidade visual.

A AGRICULTURA SEMPRE ATENDEU A DEMANDA DO BRASILEIRO?

JBG: Desde o século XVI, a agricultura brasileira, impulsionada por colheitas de exportação, soube responder à demanda interna. Havia uma oferta diversificada de alimentos vegetais e animais, alguns já utilizados pelas tribos indígenas, porém a maioria trazida da Europa e da Ásia. As comidas e as bebidas eram produzidas a partir de matérias-primas da agricultura tropical, como a cana-de-açúcar, o milho, a mandioca e os animais de pequeno porte.

Ao longo dos séculos XIX e XX, essa fonte pródiga não só prosseguiu, como ganhou velocidade, tendo sido expandida por áreas antes desocupadas. Hoje, é fonte de inspiração dos modernos chefes de cozinha de todo o mundo, atrás do valor comercial da chamada gastronomia “fusion". O monopólio do comércio pela Coroa Portuguesa não impediu a carne-seca, que matava a fome do escravo e que tinha sua origem no Pampa argentino, por meio do modal de transporte da época, o lombo do burro, via o “hub" atacadista de Sorocaba.

PODER-SE-IA DIZER QUE A “MALDIÇÃO DOS RECURSOS NATURAIS" E A DOENÇA HOLANDESA SÃO APLICÁVEIS AO BRASIL?

JBG: A literatura econômica trata o conceito de “maldição dos recursos naturais" para explicar o fraco desempenho de certos países muito dependentes de matérias-primas. Se olharmos para o ciclo do ouro, a resposta parece positiva. Os recursos gerados pela exportação dos metais preciosos foram parar na Europa. Mas, existem argumentos opostos: parte do metal fugia do controle real e financiava o desenvolvimento do interior do País.

Existe a afirmação de que a recessão econômica primariza a atividade econômica e afasta o Brasil do desenvolvimento. Isso sugere que as atividades ligadas à agricultura e à mineração carecem de agregação de valor e produtividade. Exportar commodities e matérias-primas significa gerar receitas em moeda forte e provocar a sobrevalorização do câmbio, a chamada doença holandesa. Quanto aos recursos gerados na exportação, é bom sempre pensar se o Brasil sempre esteve imune à doença holandesa ou não.

QUAL É A IMPORTÂNCIA DO CAFÉ NO BRASIL MODERNO?

JBG: Nenhum outro produto agrícola teve mais impacto na formação do Brasil moderno do que o café. A sua grande contribuição não se deu na expansão da atividade agrícola, mas na nossa industrialização. O café entrou no Brasil contrabandeado da Guiana Francesa e rumou em direção ao sul, encontrando no Vale do Paraíba seu terreno ideal de produção, colheita e exportação. O seu comércio exportador trouxe os recursos financeiros para modificar o modelo agrícola de produção e construir a indústria.

Com a infraestrutura ferroviária implantada a partir do século XIX, houve a ocupação do Planalto Brasileiro até o cume da Serra da Mantiqueira. Isso deu origem a uma cultura em diversos planos artísticos, como música, escultura, pintura, arquitetura e literatura regionalista. Depois de migrar bastante, a cafeicultura conforma-se à realidade agronômica e climática. A substituição da cultura da quantidade pela da qualidade é um fenômeno que, felizmente, vem se acelerando, para benefício de todos os consumidores.

A RELAÇÃO DO ESTADO COM A AGRICULTURA MUDOU NOS ANOS 90 DO SÉCULO PASSADO?

JBG: Faz parte da história econômica do Brasil o intervencionismo estatal na produção e na comercialização da borracha, do cacau, da cana-de-açúcar, além do café. Com a pretensão de “organizar" os mercados interno e externo, os métodos usavam subsídios e taxações. Os recursos públicos eram gastos de maneira pouco eficiente. Mas, as crises fiscais do Estado fecharam o Instituto Brasileiro do Café (IBC), o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) e outros congêneres no cacau, na borracha e no trigo.

Com o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), houve a liberalização regional do comércio de produtos importantes. Para fazer o pão, trazemos até hoje a farinha de outro país. O frango tornou-se a proteína animal mais barata do mundo. A maçã catarinense superou em qualidade a argentina. Os vinhos chilenos e argentinos transformaram a indústria vinícola gaúcha. A indústria queijeira de Minas Gerais, com as tecnologias estrangeiras, passa a produzir grana padano, parmesão, gorgonzola, brie, gouda, roquefort, caprinos etc. Temos outros exemplos. Com isso, as crises de abastecimento de alimentos no mercado interno brasileiro cessaram.

POR ESSA RAZÃO, ACHA QUE A MODERNIZAÇÃO DA ATIVIDADE AGROPECUÁRIA NÃO FOI NOTADA POR MUITA GENTE?

JBG: De fato, esse espetacular progresso do agronegócio brasileiro ocorreu sem invencionices retórico-populistas. Não houve nacionalização das cadeias produtivas, exigência de conteúdo local, apoio financeiro a campeões nacionais e subsídio à pecuária, dentre outros. O financiamento da produção dá-se, principalmente, pelo acesso de milhares de produtores ao crédito rural.

Não se trata de propaganda neoliberal. O Estado reservou para si o papel insubstituível em dois fatores: a incorporação de ciência e tecnologia por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e das instituições de extensão rural e o financiamento na base da pirâmide produtiva. No campo dos insumos agrícolas, prevalece a internacionalização da cadeia, seja nos aspectos científicos ou na comercialização internacional. Precisamos de pessoas que nos falem com mais frequência da dinâmica realidade da agroindústria brasileira.

ESSA SEPARAÇÃO ESQUEMÁTICA ENTRE SETORES AGRÍCOLA E INDUSTRIAL AINDA FAZ SENTIDO?

JBG: No século XXI, a estanqueidade destes setores perde cada vez mais atualidade. No caso da indústria de papel e celulose, a matéria-prima é a árvore originária de floresta plantada até em áreas degradadas. Serve para a produção de carvão vegetal usado na siderurgia. Ajuda na retenção do carbono, e o descarte do papel e do papelão é biodegradável. É uma lógica da sustentabilidade contrária à lenda dos malefícios das plantações de eucaliptos, chamadas de “deserto verde".

A cadeia de produção agropecuária assemelha-se à cadeia de valor industrial. Com o couro de boi, tanto se faz um tambor, como uma bolsa Louis Vuitton. A palma produz o dendê da peixada ou o óleo lubrificante de foguetes interplanetários. O cafezinho que as pessoas tomam às pressas próximo a suas casas se converte no Starbucks. Fica uma diferença fundamental entre indústria e agricultura. Na primeira, os fatores produtivos podem ser localizados em qualquer lugar do globo. Já tudo que mate a fome de uma crescente população só é produzido onde há terra, água e sol.

POR QUE AINDA POUCOS SE ORGULHAM DA AGRICULTURA NO PAÍS?

JBG: Temos duas respostas. Em primeiro lugar, o trabalho escravo adotado que vai do século XVI até o fim do século XIX. A mão dos escravos construiu o Brasil. O lado positivo deste processo foi a ascensão da classe de renda do nível D e E para o nível C e B, com a formação de uma nova geração de trabalhadores (pedreiros, carpinteiros, serralheiros, mestres de obras, bombeiros, tratoristas etc.). Boa parte desta gente já tinha o nível médio educacional concluído ou por concluir.

A segunda resposta decorre da distorcida visão cultural de que a civilização e o clima tropical eram inimigos natos. Ser civilizado era copiar o modo de viver dos europeus. O Brasil está construindo com grande esforço uma agricultura tropical civilizada. É um grande preconceito ignorar a cadeia produtiva praticada pela moderna agricultura tropical do País, com insumos importados e nacionais. Como sempre ajudou a construir o Brasil moderno, a agricultura servirá para a recuperação da nossa cambaleante e pouco produtiva economia.

ESSE PROCESSO DE OCUPAÇÃO DE ÁREA AINDA PROSSEGUE FORTE NO BRASIL?

JBG: Assistimos ao desenvolvimento de um novo Brasil. A sofisticação tecnológica da produção rural fica cada vez mais intensiva e menos extensiva. Esse modelo viabiliza-se com centros urbanos modernos de qualidade nos serviços superior à média nacional. Com isso, atrai novos moradores, recrutados entre o pessoal de nível superior formado nas universidades do Sudeste brasileiro. Achamos que ainda é cedo para avaliar o impacto desses novos núcleos urbanos na vida da Federação brasileira.

A soja e o minério de ferro salvam o Brasil da debacle provocada pelas ameaças de recessão econômica nacional e mundial. Mais relevante do que a receita em moeda forte trazida por estes produtos, parece ser o fluxo migratório para o Centro-Oeste dos últimos decêndios. Trata-se de um elemento importante da formação miscigenada da nacionalidade brasileira, padrão étnico que já chamava a atenção de José Bonifácio no início do século XIX. No final do século XX, o Brasil do Tratado de Santo Ildefonso tornou-se uma realidade econômica.