Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Diário de bordo

Brasileiros!

Setembro de 2016

ROBERTO RODRIGUES - Colunista

ROBERTO RODRIGUES, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (GV Agro)

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NEM O El Niño nem a geada de julho passado conseguiram desanimar os produtores rurais brasileiros. Perdas com seca, enchentes e frio fazem parte da vida rural, mas, neste ano, foram bem pesadas. Mesmo assim, há uma determinação de plantar uma nova grande safra 2016/17.

O Índice de Confiança do Agronegócio (IC Agro), calculado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) desde 2013, deu um salto positivo no segundo trimestre de 2016, tanto em relação ao trimestre anterior, quanto aos segundos trimestres passados. No segmento "dentro da porteira", o dos agropecuaristas, o índice superou a casa de 103! Trata-se de uma boa surpresa, até porque, desde sua criação, o índice nunca foi positivo – o que acontece quando fica acima de 100, número este que mostra equilíbrio: não há nem pessimismo, nem otimismo.

O que estaria por trás desse ânimo todo? É claro que a perspectiva de preços razoáveis para a próxima estação tem importância, mas eles eram bons também no ano passado. Aliás, a condição cambial de 2015 estava melhor do que a deste ano para exportações. Os cenários demandantes dos países emergentes são outro bom sinal, mas estão no horizonte já há algum tempo e não são novidade. Qual é a explicação?

Confiança deve ser a resposta. Com o final do exaustivo processo de impeachment, o "novo" governo tem, agora, de dizer a que veio e tratar de cumprir o prometido: preparar o País para uma nova fase de desenvolvimento sustentado, gerando empregos, melhorando a logística, fazendo o ajuste fiscal, atraindo investidores e colocando a inflação na meta. São obviedades, mas que não aconteciam no governo encerrado.

E parece que o campo confia que isso vai acontecer agora. Os primeiros passos são bons, especialmente no que diz respeito a uma coordenação essencial entre os órgãos de governo que lidam com a área rural: Ministérios da Fazenda (MF), da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), das Relações Exteriores (MRE) e do Meio Ambiente (MMA), além de instituições e agências reguladoras como Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) etc. As relações do Executivo com o Legislativo (leia-se Frente Parlamentar da Agropecuária) são muito positivas, bem como com as entidades representativas do agro. Agriculturas familiar e empresarial recebem atenção igual e equilibrada.

Resta, agora, consertar velhos problemas que nos tiram competitividade, desde a trágica logística até as recorrentes questões da renda rural, da política comercial, da modernização de legislações obsoletas e de recursos para ciência e tecnologia, além da melhoria da produtividade do trabalho. São assuntos que estão na agenda declarada do novo governo. Vamos esperar com otimismo, mostra o IC Agro.

Enquanto isso, temos que ir mudando de atitude: não podemos mais ficar defendendo políticas específicas para o campo. Os temas antes referidos interessam a todos os brasileiros. Vamos, então, defender uma logística para o Brasil, e não exclusivamente para o agro; uma política de renda para todos, e não apenas para o campo; abrir mercados para todos os setores, e não só para nós; modernizar as legislações trabalhista, previdenciária e tributária para os brasileiros todos. Se defendemos unicamente o campo, acabamos nos marginalizando. Afinal, não somos só agricultores brasileiros; antes disso, somos brasileiros agricultores.