Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Fragilidade no agronegócio brasileiro

Gestão da armazenagem

Setembro de 2016

ESSENCIAL PARA a atividade econômica em qualquer sistema de produção e, principalmente, para o agronegócio, a gestão da cadeia de suprimentos ajuda os mercados a operarem com equilíbrio para uma série de preços. A sua gestão no planejamento da oferta e da demanda de insumos e produtos dentro e entre empresas envolve atividades como fornecimento, aquisição, conversão e logística.

Fragilidade no agronegócio brasileiro

A logística abraça o planejamento e as operações dos sistemas físicos, informacionais e gerenciais necessários para as cargas do agronegócio chegarem aos lugares e nas horas certas, em condições adequadas, com o menor gasto possível. De seus três fatores-chave – transporte, armazenagem e informação –, trataremos dos dois últimos.

No agronegócio, os diversos agentes envolvidos precisam ter acesso a informações de forma rápida e com qualidade para tomarem decisões logísticas e comerciais mais assertivas. Mesmo assim, na administração da armazenagem de grãos no Brasil, paira uma série de lacunas sobre as suas finalidades e relações com a produção.

A armazenagem possui como função estocar os produtos de forma a atender demandas em diferentes lugares e períodos com a qualidade devida. Para o agronegócio, o seu serviço é fundamental: de um lado, é imprescindível para manter a oferta de alimentos ao longo da entressafra; de outro, pode ser utilizada como uma estratégia comercial para a obtenção de receitas superiores na venda da produção.

O custo de transporte até o armazém, o custo de armazenagem e o custo de transporte entre o armazém e o destino final (porto) são variáveis importantes. Elas influenciam de forma direta na viabilidade da utilização da armazenagem.

Tomemos, por exemplo, a safra 2014/15 na região do município de Sorriso, no estado do Mato Grosso. Os produtores que puderam armazenar a soja colhida em fevereiro e optaram por escoá-la em abril obtiveram R$ 27,53 por tonelada de receita superior. A decisão ótima, na verdade, seria escoar a produção em abril. A representatividade do custo de armazenagem no custo logístico total é de 10,17%, o equivalente a 2,85% do preço 
da leguminosa.

Dados da Companhia Nacional de Abastecimento – Conab (2015) mostram que, para cada tonelada de grãos produzida, o Brasil dá conta de armazenar 600 quilos. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) estabelece uma capacidade desejável de armazenagem acima de 20% da produção.

O Censo Agropecuário (IBGE, 2006) apontava que o País apresentava 26,5 milhões de toneladas, o correspondente a 21,76% da capacidade instalada para grãos nas propriedades agrícolas do País (Conab, 2006). Nos EUA, a capacidade de armazenagem de grãos é da ordem de 647 milhões de toneladas (138% da produção de grãos), sendo que 55% deste total localizam-se dentro das fazendas (USDA, 2015).

Estoque sobre rodas, armazenagem a céu aberto e forte sazonalidade de preços no mercado de transporte são três dos gargalos oriundos da baixa capacidade estática para o armazenamento de grãos no Brasil. Além disso, a falta de informações sobre a viabilidade de utilização deste serviço na logística é também impedimento para o desenvolvimento desse setor.

Gastar o menos possível é tópico relevante na agrologística. Em um setor com margens de comercialização reduzidas, a utilização inteligente da armazenagem é básica. Como a efetividade da gestão logística possui relação intrínseca com a busca pela maximização das receitas, a disponibilidade e a posse de informações são extremamente importantes para a gestão e o planejamento da cadeia.

REALIDADE NACIONAL

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, economias com logística podem representar o diferencial de sustentabilidade para as cadeias de grãos. As grandes áreas de produção se encontram distantes dos principais portos, como os de Santos e Paranaguá. Já as articulações rodoviárias, normalmente em condições bastante precárias, implicam fretes mais caros do que os eventualmente praticados em ferrovias e/ou hidrovias.

Some-se, ainda, a estrutura de armazenagem incipiente e/ou mal localizada, em termos de capacidade disponível para estocagem dentro das propriedades agrícolas. Isso obriga os produtores a escoarem suas safras imediatamente após a colheita, com longas filas nos portos e maiores riscos de não aproveitarem o melhor preço de venda do grão e terem que enfrentar valores de pico para o frete rodoviário.