Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Produção e exportação brasileiras

Marca de recordes

Setembro de 2017

A SAFRA 2016/17 representou um avanço sem precedentes para a produção de soja e milho no Brasil. Com um recorde absoluto, as suas colheitas, pela primeira vez na história, ultrapassaram a marca de 200 milhões de toneladas de grãos. A marca chega a 211 milhões de toneladas, segundo dados do levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgado em agosto último. Deste total, 114 milhões de toneladas foram colhidos na safra de soja e 97 milhões na safra de milho.

Os resultados expressivos do setor produtivo podem ser atribuídos a diversos fatores. O grande destaque vai para a aplicação de tecnologia no campo. São as melhores práticas de manejo do solo, plantio e aplicação de insumos (fertilizantes e defensivos), além do desenvolvimento de novas variedades de sementes com maior resistência a pragas e maior produtividade. Outro ponto fundamental e favorável para a obtenção desses resultados veio das boas condições climáticas ao longo do desenvolvimento das lavouras.

Na safra 2015/16, uma longa estiagem predominou nas áreas dos principais estados produtores do País. Esse cenário, extremamente positivo, possibilitou ao País alcançar índices de produtividade até então nunca vivenciados.

Assim, na safra 2016/17, a produtividade média da soja alcançou 56 sacas por hectare, 17% acima da quantidade verificada na safra 2015/16. Em algumas regiões do estado do Mato Grosso, foram registrados casos de produtividades impressionantes, ao redor de 100 sacas por hectare. Também a cultura de milho obteve resultados expressivos nos índices de produtividade, com média de 93 sacas por hectare, 33% acima do que se verificou na safra do ano passado e 10% acima do índice da safra 2014/15, que apresentava, até então, a melhor quantidade, com 84 sacas por hectare.

Segundo especialistas, o comportamento da safra 2016/17 representou uma quebra de paradigma. Há uma mudança no patamar no que diz respeito à produção de grãos no Brasil. “É um caminho sem retorno", afirma André Pessôa, consultor da AGROCONSULT.

Esse retrato é o resultado de uma dupla combinação entre maior investimento em novas técnicas e a expertise adquirida pelos produtores rurais. O controle sobre o momento adequado para iniciar o programa de plantio e aplicar os fertilizantes e defensivos faz a produtividade tomar uma trajetória ascendente.

Mas, sem dúvida, o clima continua como a variável imponderável. Por isso, há a necessidade de o produtor aguçar a sensibilidade no acompanhamento das previsões meteorológicas; buscar e explorar o máximo potencial que o cenário apresenta em cada momento.

DESAFIOS NAS EXPORTAÇÕES

Impulsionada pela maior oferta de grãos decorrente do recorde da safra 2016/17, a exportação de soja neste ano também superará, pela primeira vez na história, a marca de 60 milhões de toneladas embarcadas, com estimativas variando entre 61 milhões e 62 milhões.

Após um 2016 fora da curva, a exportação de milho deverá retomar a trajetória normal de crescimento, com a superação do registro recorde de 30,7 milhões de toneladas, apurado em 2015, sendo estimada entre 32 milhões e 33 milhões de toneladas exportadas.

Para receber todo esse fluxo de grãos rumo ao mercado internacional, demandou-se que os portos brasileiros operem em sua máxima eficiência. O desempenho tem sido positivo. O Porto de Santos, principal rota para a exportação de soja e milho no Brasil, apresentou crescimento de 11% nos embarques de grãos entre janeiro e julho deste ano.

Produção e exportação brasileiras

Para evitar o estrangulamento do sistema portuário tradicional, localizado nas regiões Sul e Sudeste do País, o plano dos exportadores é buscar, mais do que nunca, novas rotas e novos portos para enviar as suas cargas.

Assim, o fluxo de carretas carregadas de soja e milho com destino aos portos do Arco Norte do País foi intensificado. Com isso, os Portos de Itaqui (no Maranhão), Aratu (na Bahia) e Santarém e Barcarena (ambos no Pará) registraram crescimentos acima da média das últimas safras. Estes quatro portos, somados, foram responsáveis pelo embarque de aproximadamente 12 milhões de toneladas de soja entre janeiro e julho deste ano. Neste segundo semestre, o escoamento de milho deve intensificar.

OS OBSTÁCULOS DA BR-163

Os maiores desafios para o setor exportador explorar as novas rotas via portos do Arco Norte estão na infraestrutura logística para acesso a estas regiões. Estradas em péssima ou sem nenhuma condição de trafegabilidade são situações recorrentes. Falta de asfaltamento, atoleiros e pontes quebradas constituem casos comuns enfrentados pelos motoristas.

O quadro mais emblemático desse contexto é a rodovia BR-163. Esta é uma rota praticamente exclusiva para transporte dos grãos produzidos no norte do estado do Mato Grosso, uma das principais regiões produtoras do País, com destino ao Porto de Miritituba (no Pará), porto de acesso via transbordo em barcaças aos Portos de Santarém e Barcarena.

Aproximadamente 100 quilômetros da rodovia, no trecho final no estado do Pará, ainda carecem de asfaltamento. O momento crítico é durante o período de chuvas intensas, que coincide com o início do escoamento da safra de soja, no início do ano. Os imensos atoleiros formados inviabilizam completamente a continuidade das viagens dos caminhões.

No início da safra 2016/17, filas de caminhões ficaram até trinta dias paradas em função de atolamentos na rodovia. Os exportadores e as transportadoras tiveram grandes prejuízos. O governo federal comprometeu-se a finalizar as obras de asfaltamento da BR-163 antes do início da próxima safra de soja. Vamos aguardar.

Outro problema comum na BR-163 são os bloqueios organizados sistematicamente por manifestantes em reivindicações diversas. No início do ano, as ações partiram de movimento grevista coordenado por representantes do setor de transporte. As demandas eram um reajuste nos preços do transporte e a criação de uma tabela de preços mínimos por parte do Governo. Já no mês de julho, os produtores rurais do estado do Pará fizeram bloqueio contra o veto presidencial à Medida Provisória (MP) nº 756/16, que reestabelecia os limites da Floresta Nacional do Jamanxim.

No início de agosto, foram registrados novos bloqueios na BR-163, no estado do Mato Grosso, dessa vez pelo setor de transporte em virtude do aumento da alíquota de impostos incidentes sobre os combustíveis. Os enormes prejuízos são absorvidos pelos exportadores.

Em todas essas ocasiões, a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC) posicionou-se de forma contundente junto ao governo federal, com solicitação de providências para a liberação imediata da rodovia. O ônus é pesado sobre as suas empresas filiadas.

Com direitos constitucionais, as manifestações e as greves devem ser respeitadas. Todavia, o direito de livre tráfego, de ir e vir, também garantido pela Constituição, precisa ser acatado durante estas manifestações, o que não ocorreu em todos os casos.

A ANEC, como maior entidade representativa do setor exportador de grãos no Brasil, está atenta às dificuldades logísticas vivenciadas pelas tradings no acesso aos portos do Norte. Por isso, cobra e sugere ao governo federal a implantação de medidas que possibilitem o crescimento e a exploração dos portos desta região, em sintonia com o crescimento das exportações brasileiras.