Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Pecuária de leite

O avanço do sul

Setembro de 2017

GRANDES TRANSFORMAÇÕES têm sido observadas na produção de leite no Brasil, com uma dinâmica de crescimento mais acentuada na região Sul. É forte a concentração da produção leiteira no sudoeste do Paraná, no oeste de Santa Catarina e no norte/noroeste do Rio Grande do Sul. Nessa macrobacia, tem-se a maior concentração de produção leiteira do Brasil, com mais de 100 litros diários produzidos por quilômetro quadrado de área (ver mapa). Esta densidade de produção diminui o custo de captação e favorece o desenvolvimento da atividade industrial. Mas, que outros fatores têm sido determinantes da expansão leiteira na região Sul?

Diversos fatores parecem explicar esses diferenciais da produção leiteira no Sul. Talvez, o mais importante seja a maior propensão de a gestão do negócio ser pautada na rápida adoção de inovações tecnológicas, normalmente compreendidas e recebidas sem barreiras. Isso se deve ao fato de muitos desses produtores serem egressos de atividades altamente demandantes de tecnologia e controle, como suínos, aves, trigo e soja. Esse fato, combinado a uma maior escolaridade observada na região, ajuda a explicar o comportamento em questão, crucial para o sucesso e o avanço da atividade.

Pecuária de leite

Outro fator, ainda associado à gestão, é que poucos produtores de leite do Sul residem na cidade. Tipicamente, o casal e seus filhos são a principal mão de obra da propriedade, frequentemente a única. Trata-se de uma produção de origem familiar, com terras melhor distribuídas, presença de comunidades rurais e produtores com capacidade de promover rápidas mudanças produtivas e organizacionais, com agregação de tecnologias e inovações.

A capacidade de organização dos produtores rurais, por meio de sólidas cooperativas, é outra característica marcante do Sul. Isso ajuda a reduzir barreiras enfrentadas por produtores menores para compra de insumos, venda de leite, assistência técnica e gestão do negócio. Em parceria com empresas de insumos e prestadores de serviços diferenciados, as cooperativas têm cumprido importante papel na difusão das inovações tecnológicas.

As condições climáticas, com temperaturas mais amenas do que em outras regiões brasileiras, do outono à primavera, facilitam a adaptação de animais de alta produtividade e o cultivo de forrageiras de espécies temperadas, de alta conversão em leite. Há, ainda, a ausência de uma estação seca, com chuvas oscilando entre 100 mm e 150 mm todos os meses do ano, ainda que com ocasionais estiagens no verão. Esse fator imprime uma característica peculiar à região: uma maior produção leiteira no inverno, em particular no segundo semestre, em função da combinação entre abundantes forragens de alta qualidade e ausência de estresse animal por calor.

Há, também, ilhas de produtividade de leite no Sul brasileiro, com um padrão tecnológico que, a cada dia, se aproxima daquele observado nas principais regiões produtoras do mundo. A microrregião de Ponta Grossa (PR) é um desses exemplos. A produtividade média do rebanho é de 5.991 litros de leite por vaca no ano, atestando elevado nível tecnológico nas fazendas da microrregião. Esta constatação repete-se em outras microrregiões leiteiras do Sul, como Jaguariaíva e Pato Branco (PR), Passo Fundo e Não-Me-Toque (RS) e praticamente todas as microrregiões do oeste catarinense. Todas exibem produtividade similar às da Nova Zelândia, um dos grandes exportadores mundiais de lácteos. Como indicador desse diferencial, dos cem municípios brasileiros de maior produção de leite por vaca, 92 encontram-se no Sul.

Pecuária de leite

Finalmente, um outro fator importante refere-se à forte concorrência do Sul com as importações vindas da Argentina e do Uruguai, o que cria uma pressão adicional por competitividade e inovação tecnológica, impulsionando a produção regional.