Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O agronegócio é o seguinte

Agro brasileiro mais concentrado e produtivo

Setembro de 2018

AS REVISÕES para baixo nas projeções do Produto Interno Bruto (PIB) e as oscilações do preço do dólar mostram que o cenário, ao menos no curto e no médio prazos, é completamente incerto. Nem mesmo a redução da taxa básica de juros, somada à redução dos depósitos compulsórios dos bancos (que aumentou a quantidade de dinheiro para empréstimos), foi suficiente para aquecer de forma mais acentuada a economia.

Até a definição do cenário eleitoral, a volatilidade da economia deve continuar. O prazo para a economia retomar o seu crescimento de forma mais intensa é uma incógnita. Para o produtor rural, repetimos o alerta para ficar atento ao movimento do dólar, comprando insumos e vendendo a produção aos poucos para garantir um bom preço médio.

No mês passado, foram divulgados os dados preliminares do Censo Agropecuário 2017, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esta pesquisa revelou mudanças importantes no agro brasileiro nos últimos onze anos (o último Censo tinha sido em 2006). De modo resumido, o agro: (i) ficou mais concentrado (menor número de estabelecimentos) e, também, mais produtivo, com a incorporação de mais tecnologia; (ii) ficou mais profissionalizado e mais feminino, porém mais envelhecido; e (iii) houve um avanço das lavouras temporárias, das pastagens plantadas e das matas naturais sobre as pastagens naturais e as lavouras permanentes.

Quando se toma o período de 2010 a 2017, a análise da infraestrutura do ponto de vista do agronegócio revela pontos interessantes, principalmente nesses tempos próximos das eleições gerais no País. A participação das exportações pelo Arco Norte passou de 15,1% para 26,2%, enquanto a produção nacional de grãos aumentou perto de 70%. Já a capacidade de armazenagem ficou com pouco mais da metade da produção, enquanto as exportações de grãos triplicaram. A frota rodoviária no País aumentou por volta de 26,9%. Os investimentos em ferrovias cresceram 22,1%, mas reduziram 45,0% e 1,8% em hidrovias e rodovias respectivamente.

No gerenciamento das cadeias de suprimentos, tem-se a necessidade de se minimizarem as perdas e o desperdício de produtos, tanto nas etapas de colheita e processamento, quanto nas de transporte, armazenagem e consumo. Um uso mais eficiente dos recursos naturais e uma maior segurança alimentar são os principais fatores relacionados a essa demanda, além de impactos sobre a lucratividade dos agentes da cadeia. Estima-se que 1 bilhão de pessoas poderia ter acesso a alimentos caso as perdas e o desperdício destes produtos fossem reduzidos pela metade. A Agroanalysis traz um artigo que estima o percentual de perdas e desperdícios ao longo da cadeia de suprimentos de soja brasileira.

O setor leiteiro brasileiro precisa superar grandes desafios para aumentar a competitividade frente ao mercado internacional. O primeiro ponto refere-se à grande fragmentação da indústria. As cinco maiores empresas respondem por apenas 28% da captação formal de leite. Além disso: existe um grande número de empresas na informalidade, sem fiscalização oficial; falta escala operacional para o processamento das fábricas e os caminhões transportarem maiores volumes da matéria-prima; e os laticínios possuem baixo poder de mercado na venda de produtos e no relacionamento com os grandes varejistas. Para conquistar uma maior inserção no mercado internacional, essas questões estratégicas precisam ser revistas.

Um novo conceito vem difundindo-se de forma expressiva nas economias mais desenvolvidas: a bioeconomia. A FGV Projetos realizou um estudo para identificar a situação atual da bioeconomia no Brasil, os marcos regulatórios, as políticas públicas e os programas específicos existentes. O trabalho apresenta os desafios e as oportunidades para avançar na implementação de projetos específicos nesse campo, com o mapeamento das áreas potenciais de cooperação entre sócios nacionais e estrangeiros. Com a abundância e a diversidade dos recursos naturais, a posição brasileira é privilegiada nesse novo mercado.

Na entrevista do mês, o secretário da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SPA/MAPA), Wilson Vaz de Araújo, traz uma reflexão sobre as mudanças ocorridas no mapa da distribuição geográfica da produção agropecuária. Se a baixa inflação e a taxa de referência Selic continuarem a taxas baixas por cinco anos, o sistema de crédito rural será voltado mais para os pequenos e os médios produtores. Isso já está acontecendo. Os grandes produtores buscarão recursos no mercado de capitais, com operações envolvendo os títulos do agronegócio. Parte dos subsídios deverá ser voltada para o suporte ao seguro rural e a gestão de risco.

Em Caderno Especial deste mês, discorre-se sobre a cadeia produtiva de cacau. As lavouras da Bahia começam a superar o trauma deixado pela doença da vassoura-de-bruxa. Esse processo foi adiado por causa da longa estiagem que provocou uma violenta queda na produção nas safras de 2016 e 2017. Enquanto isso, o estado do Pará vive uma década de expressivo crescimento na cacauicultura. Esse processo promissor deverá prosseguir nos próximos anos. A Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), junto a outros atores, lidera um movimento para a produção nacional chegar a 400 mil toneladas em 2028.