Florestas e energia limpa são o grande trunfo brasileiro no debate sustentável mundial. Embora tenhamos o código florestal mais exigente do mundo em termos de proteção florestal, não fomos eficientes na comunicação sobre os debates recentes envolvendo o desmatamento da Amazônia.

A recente polêmica sobre o desmatamento da Amazônia pode transformar-se num fator perturbador da implementação do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), tão importante para trazer o Brasil de volta ao grande tabuleiro do comércio global, do qual o País estava um tanto afastado desde que a Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) empacou e desde que ficou fora da Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês).

Não fomos eficientes na comunicação sobre o tema, embora tenhamos o Código Florestal mais exigente do mundo em termos de proteção florestal e o agro brasileiro seja radicalmente contra o desmatamento ilegal.

Agora é preciso retomar essas conversas num nível mais técnico para que as coisas caminhem na boa direção do acordo. Diante dessa necessidade, a chave para uma nova abordagem é esta: florestas e energia limpa.

Redução de emissões e energia limpa

A Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) acaba de lançar um relatório anual referente a 2018 contendo dados muito interessantes para alimentar essa discussão. Entre eles, vale destacar:

  • Já temos 7,83 milhões de hectares de florestas plantadas, dos quais 6,30 milhões são certificados, aí incluídas áreas produtivas, além das de conservação.
  • Cerca de 36% da área plantada é de produtores de celulose e papel; 29%, de agricultores independentes; 12%, para siderurgia e carvão vegetal; 10%, de investidores financeiros, principalmente fundos; 6%, para painéis e laminados; 4%, para produtos sólidos de madeira; e o resto é de outros produtores.
  • As florestas plantadas estão presentes em cerca de 1.000 municípios de 23 estados, nos quais empregam diretamente 513 mil pessoas, o que impacta, também, indiretamente a vida de mais de 3,8 milhões de brasileiros, dinamizando a economia das localidades.
  • A maior parcela dos resultados deve-se a exportações, dada a alta demanda do mercado externo. Elas aumentaram 24,1% em relação a 2017, alcançando o valor de US$ 12,5 bilhões. O Brasil é o maior exportador mundial de celulose.
  • Foram feitos investimentos da ordem de R$ 6,3 bilhões em 2018, dos quais mais da metade (ou R$ 3,9 bilhões) foi em plantação de florestas.
  • As florestas plantadas representarão uma importante parcela do cumprimento do compromisso brasileiro assumido no Acordo de Paris de reduzir emissões de gases do efeito estufa: o estoque de CO2 equivalente chegou a 4,2 bilhões de toneladas no ano passado.

São todos dados que mostram a grande dinâmica de um setor que ainda vai crescer muito nos próximos anos e cuja participação na redução das emissões referidas será da maior relevância. Essas informações deveriam neutralizar as notícias sobre desmatamento que são publicadas alhures para desmerecer nosso agro, tão sustentável!

O que muita gente ainda não sabe

Mas são números desconhecidos do grande público. Acontece o mesmo, por exemplo, com as informações sobre a matriz energética brasileira, da qual cerca de 43,5% são renováveis, enquanto, na do mundo todo (e aí incluída a nossa), apenas 14,1% são, porque o resto tem origem fóssil altamente poluente.

Ainda mais impressionante, nessa numerologia, é que 17% da nossa matriz energética vem da cana-de-açúcar, mais do que toda a eletricidade gerada nas nossas hidrelétricas!

Em outras palavras, a agroenergia e as árvores plantadas no Brasil são muito mais relevantes do que o desmatamento ilegal da Amazônia, que tanto condenamos.

Nota: versão produzida a partir do artigo original publicado na edição mensal da Revista Agroanalysis.

Autor

  • Coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro) e embaixador especial da FAO para as Cooperativas.

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