Decisões de política pública sobre energia para transporte e mobilidade estão sendo tomadas por meio de critérios de avaliação muitas vezes parciais, informações incompletas e ideias preconcebidas, sem uma avaliação científica mais rigorosa e sem levar em conta emissões geradas de forma mais completa. Isso tem ocorrido em várias situações e nos eventos mais prestigiados e relevantes do globo.

No Energy Action Forumevento que precedeu a Cúpula do Clima, realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York, em setembro último, a completa descarbonização da matriz energética da Dinamarca por meio da adoção em larga escala de energia eólica foi apresentada como uma solução escalável e replicável para o resto do mundo. Faltou indicar que o consumo de energia da Dinamarca é relativamente pequeno, com cerca de 0,74 quadrilhão de British thermal units (BTU), e que a intermitência da energia eólica é compensada e absorvida pelo enorme parque gerador de energia térmica de origem fóssil, à base de carvão de gás natural, do seu vizinho mais desenvolvido, a Alemanha, que tem um consumo de 14,06 quadrilhões de BTU.

Esse é o mesmo erro que alguns formuladores de política estão incorrendo ao favorecer tecnologias que não emitem gases do efeito estufa no cano de escape, mas que utilizam eletricidade gerada a partir de fontes de energia de origem fóssil e, portanto, emitem gases do efeito estufa mesmo assim, não no cano de escape, mas nas usinas geradoras de eletricidade.

Faltam, portanto, maiores esclarecimento e consenso a respeito dos critérios de avaliação de emissões de gases do efeito estufa para a mobilidade que devem ser considerados. Tais critérios podem ser classificados resumidamente em três opções: (i) “tanque à roda”; (ii) “poço à roda”; e (iii) “berço ao túmulo”.

Pelo critério “tanque à roda” (ou tank-to-wheel), são avaliadas as emissões entre o tanque do posto de abastecimento e o uso final da energia, pelo cano de escape. Por esse critério, carros elétricos a bateria são considerados uma solução eficiente independentemente da fonte de energia que utilizam, pois têm emissão zero no cano de escape e desconsideram as emissões relacionadas à geração da energia.

No critério “poço à roda” (ou well-to-wheel), são consideradas as emissões geradas desde a geração da energia até o seu uso final. Esse critério faz mais sentido do que o primeiro e evita a falácia de se eleger uma combinação de motorização e energia que não resulta em ganho ambiental. Há um rol extenso de conhecimento científico acumulado sobre esse tipo de avaliação, que certamente é mais completo do que o “tanque à roda”.

O critério “berço ao túmulo” (ou cradle-to-tomb) é o mais completo, pois, nesse caso, são consideradas não só as emissões da geração da energia, mas também aquelas geradas a partir dos meios de produção e do uso da energia, isto é, os processos de produção da energia, a produção de veículos e todos os seus componentes, incluindo as baterias quando for o caso, e o descarte de todos esses equipamentos. Ainda há relativamente pouco conhecimento científico acumulado sobre esse tipo de avaliação, mas a Pesquisa e a Ciência avançam rapidamente para cobrir essa lacuna.

No Brasil, a partir da avaliação do “poço à roda”, foi desenvolvida e já está disponível ao consumidor a um preço relativamente acessível uma tecnologia de mobilidade que combina uma fonte de energia limpa e uma eficiência energética bastante evoluída. É o veículo híbrido flex capaz de utilizar etanol combustível puro, que emite, pelo critério “poço à roda”, apenas 29 gramas de gás carbônico equivalente por quilômetro (g CO2 eq./km). Um veículo flex convencional movido a etanol emite 58 g CO2 eq./km, um veículo convencional com gasolina contendo 27% de etanol emite 128 g CO2 eq./km, e um veículo com gasolina e zero de etanol emite cerca de 145 g CO2 eq./km. A título de comparação, um veículo elétrico a bateria na Europa emite, em média, 92 g CO2 eq./km e tem um preço de aquisição relativamente elevado, devido ao custo da bateria.

Existe um senso de urgência, em todo o mundo, para que medidas de controle de emissão de gases do efeito estufa sejam adotadas e aceitas pelo consumidor. Essas estratégias precisam ser replicáveis, escaláveis, acessíveis e de mais rápida implementação, se possível utilizando a infraestrutura existente.

É dentro desse quadro que estratégias de mitigação devem ser planejadas e implementadas.

Autor

  • Presidente da DATAGRO e representante da sociedade civil no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).

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