Para tentar conter o avanço do novo coronavírus, estão sendo impostas fortes restrições à circulação de pessoas e mercadorias chinesas, o que afeta a atividade econômica de todo o mundo. No agro brasileiro, o impacto será sentido, a curto prazo, nos preços menores das commodities agrícolas e, a médio prazo, na redução das exportações.

Desde janeiro, um assunto tem permanecido no radar do noticiário econômico: os desdobramentos da epidemia na China de um coronavírus oficialmente denominado COVID-19. Para tentar conter o avanço desse vírus, que já conta com pessoas infectadas em pelo menos 29 países/territórios, de um lado, as autoridades chinesas estabeleceram fortes restrições à circulação de pessoas e mercadorias e, de outro, diversos países estabeleceram maior controle sobre a entrada de pessoas vindas da China.

Naturalmente, essas restrições têm afetado a atividade econômica chinesa, e seus impactos serão sentidos por todos. Infelizmente, ainda não estão evidentes quais são as dimensões dos desdobramentos dessa epidemia, e, por isso, ainda não é possível projetar quantitativamente cenários para avaliar seus impactos sobre a economia mundial e o agronegócio brasileiro. Porém, apesar dessas limitações, já é possível identificar quais poderiam ser os principais canais pelos quais essas turbulências afetariam o universo agro aqui no Brasil: a curto prazo, preços menores, independentemente do destino dos embarques; e, a médio prazo, um menor volume de comércio internacional.

COMO O AGRONEGÓCIO BRASILEIRO PODE SER IMPACTADO?

A curto prazo, o canal mais direto seria justamente por meio de uma demanda represada e, a médio prazo, caso haja um desaquecimento mais prolongado da economia chinesa, por meio de uma demanda menos aquecida. Todavia, um efeito indireto já tem sido percebido: menores cotações para as commodities. Ou seja, as exportações do agronegócio brasileiro podem gerar receitas menores mesmo em destinos que não estão sendo significativamente impactados pela epidemia do COVID-19.

Apesar da importância do tema, a delimitação quantitativa dos possíveis impactos descritos nos parágrafos anteriores tem sido consideravelmente vaga. A razão disso é que ainda há muita incerteza em torno dos desdobramentos dessa epidemia:

  • Não está definida qual será a dimensão dela: se, por um lado, há um número elevado de casos; por outro, o número diário de novos infectados está desacelerando;
  • Caso essa epidemia se espalhe para algum outro país, notadamente do Sudeste Asiático, não se evidenciou se as mesmas medidas de contenção adotadas pelas autoridades chinesas poderão ser replicadas;
  • As autoridades econômicas de diversos países já sinalizaram que estão atentas aos desdobramentos dessa epidemia e que, se for necessário, farão uso de novas injeções de liquidez e estímulos fiscais para conter uma desaceleração mais forte.

Enfim, dadas a importância do tema e as incertezas associadas, é fundamental manter no radar a evolução dessa epidemia.

COMO A ECONOMIA CHINESA PODE SER IMPACTADA?

Naturalmente, dada a relevância da China para a economia mundial (16,2% do Produto Interno Bruto – PIB – mundial em 2019 e 12,4% de todo o comércio internacional de bens em 2018), há uma grande preocupação com relação aos possíveis impactos dessa epidemia sobre a economia chinesa e, consequentemente, o resto do mundo. Embora ainda não haja números oficiais, há fortes evidências de que o impacto da epidemia do COVID-19 sobre a economia chinesa será relevante, ao menos, a curto prazo. A raiz desses possíveis impactos está justamente na restrição de circulação de pessoas e mercadorias:

  • A mão de obra não consegue estar presente nas unidades produtivas, seja pela quarentena, seja pela dificuldade de se locomover entre diferentes regiões na China.
  • Os estoques com os insumos e as matérias-primas necessárias para a atividade produtiva não estão sendo reabastecidos. O transporte de mercadorias está sendo priorizado para alimentos e bens mais essenciais (por exemplo, medicamentos, insumos farmacêuticos e máscaras).
  • Parte da produção realizada não está conseguindo chegar ao seu destino final, o que acaba reduzindo a própria demanda por esses produtos, dada a expectativa de que os prazos não serão atendidos.

Este último ponto é essencial, pois, até o momento, tem sido apontado como o principal canal de transmissão das turbulências que essa epidemia pode gerar para a economia mundial.

COMO A ECONOMIA MUNDIAL PODE SER IMPACTADA?

A China é a segunda maior economia do Planeta, a maior exportadora (responde por 13,5% do valor total exportado pelo mundo) e a segunda maior importadora (11,4% do valor total importado pelo mundo, atrás somente dos Estados Unidos). Seguramente, uma desaceleração da economia chinesa terá reflexos na economia mundial. Porém, embora o canal de transmissão mais tradicional seja o comércio internacional, a propagação dessa desaceleração poderá dar-se de maneira mais aguda, devido à importância chinesa nas cadeias globais de valor.

Dentro dessas cadeias, a China exerce um papel estratégico, seja como fonte de insumos de produção industriais, seja como “ponte” entre (i) a recepção dos componentes mais básicos vindos de outras economias do Sudeste Asiático, (ii) a sua montagem em peças e equipamentos intermediários e (iii) o envio para outros elos dessas cadeias espalhadas pelo Planeta, notadamente as economias avançadas.

Desde o início deste século, esse arranjo produtivo mostrou-se muito eficiente, gerando relevantes ganhos de produtividade. Essa elevada eficiência intensificou o grau de interdependência de várias economias e reduziu a necessidade de imobilização de recursos na formação de elevados estoques.

É justamente esse arranjo que pode intensificar os canais de transmissão das turbulências dentro da economia chinesa para o resto do mundo, pois diversas empresas fora da China têm encontrado problemas para receber os insumos e as matérias-primas necessárias para seu processo produtivo. Inclusive, tem se questionado o risco de organizar essas cadeias globais de suprimentos dependentes de um número tão limitado de fornecedores localizados em uma mesma região. Enfim, os impactos econômicos não estão limitados ao lado da demanda chinesa, ou seja, à desaceleração dos embarques com destino àquela economia; eles se disseminam pelo mundo também pelo lado da oferta, pois diversas indústrias dependem dos insumos e dos bens intermediários produzidos inteira ou parcialmente na China.

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