Neste momento, é consenso entre os economistas que a restrição de circulação imposta como medida para tentar conter a pandemia do novo coronavírus terá um impacto significativo nas economias. Infelizmente, não é possível prever qual será a intensidade desses impactos econômicos. No entanto, por diversos fatores, alguns segmentos do agronegócio deverão sofrer menos os impactos dessa crise.

Estamos vivendo um momento muito triste, porém histórico. No mês de março, a epidemia de COVID-19, que teve origem na China, espalhou-se pelo mundo e se tornou uma pandemia. Há o temor de que várias vidas sejam perdidas. No esforço para tentar minimizar o número de óbitos, diversas nações, inclusive a sociedade brasileira, aceitaram reduzir drasticamente a circulação de pessoas, que passaram a permanecer o maior tempo possível na proteção de seus domicílios.

Naturalmente, essa decisão desaquecerá fortemente a economia. Ou seja, além dos monumentais desafios na área da saúde, essa pandemia também está trazendo um risco enorme de a economia mundial entrar em recessão. Infelizmente, não é possível prever qual será a intensidade dos impactos econômicos provocados pela COVID-19; dada a velocidade com que a situação tem se agravado, as projeções se tornaram grandes “chutes no escuro”. Apesar disso, é possível identificar quais podem ser os canais pelos quais a pandemia poderá contaminar a economia, levando-a para uma recessão.

E O AGRONEGÓCIO? PASSARÁ ILESO?

Não. Ninguém deverá passar ileso por essa pandemia. Ainda assim, alguns segmentos do agronegócio deverão sentir de forma mais tênue os impactos dessa crise, pois a produção agropecuária:

  • depende mais de ciclos biológicos do que de uma linha de produção;
  • não é realizada em aglomerações ou ambientes fechados;
  • não está localizada nos grandes centros;
  • não deve sofrer diretamente com a restrição de circulação de pessoas; e
  • a demanda por seus produtos será mantida, porém não mais em restaurantes, e sim diretamente nos domicílios.

Apesar disso, o setor pode ser adversamente afetado por problemas logísticos, interrupções nas atividades agroindustriais e menor demanda por fibras, borracha, biocombustíveis, têxteis, papel e celulose etc. Por fim, vale destacar que, embora, até o momento, não tenham sido observados impactos fortemente negativos nas exportações do setor, talvez os números fechados de março – que, no momento, ainda não estão disponíveis – já revertam esse cenário.

É fundamental que o abastecimento seja garantido. Precisa haver uma ação coordenada do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e do Ministério da Fazenda para que a indústria de itens básicos não pare de trabalhar. Governadores e prefeitos não podem interferir nesse processo.

A ECONOMIA MUNDIAL JÁ NÃO ESTAVA BEM

Mesmo antes do início da pandemia, a economia mundial já apresentava sinais de fragilidade. Em 2019, o mundo registrou a sua menor taxa de crescimento (3,0%) desde 2009, no auge da crise de 2008. Esse limitado crescimento foi liderado pelos seguintes fatores:

  • Um conflito comercial envolvendo os Estados Unidos e a China, desacelerando ambas as economias.
  • A indústria da Zona do Euro, que, há tempos, não vinha bem, registrou contrações praticamente ao longo de todos os meses de 2019.
  • Diversos desequilíbrios presentes no mercado financeiro ficaram ainda mais evidentes, principalmente quando o Banco Central dos Estados Unidos (Fed) teve que reverter o ciclo de alta da sua taxa de juros e ofertar liquidez para acalmar o mercado.

Diante dessa conjuntura, o aumento exponencial do número de casos infectados com o novo coronavírus fez aumentar o apetite do mercado por liquidez (ou seja, pelos títulos da dívida norte-americana), levando a:

  • uma forte apreciação do dólar frente às demais moedas;
  • uma forte queda das bolsas
    pelo mundo; e
  • a redução do valor de diversos ativos, dos high yields até os single A.

Em combinação ao atrito envolvendo a Rússia e a Arábia Saudita no mercado de petróleo, sobrou até mesmo para o ouro, tradicional reserva de valor, cuja cotação chegou a cair 9,5% nos primeiros quinze dias de março.

COMO A PANDEMIA DEVERÁ IMPACTAR A ECONOMIA BRASILEIRA?

A pandemia impactará a economia brasileira tanto por um choque externo, quanto por uma paralisia no mercado interno. Na tentativa de colocar números nesse cenário, o Centro de Estudos em Macroeconomia Aplicada da Fundação Getulio Vargas (CEMAP/FGV) estimou a reação da economia brasileira em 2020 se ela fosse atingida simultaneamente pela combinação de dois abalos: um choque externo, tal qual a crise de 2008, e uma interrupção do mercado interno, tal qual na greve dos caminhoneiros de 2018. O resultado indica uma contração de -4,4%, o que seria a maior queda histórica do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

Infelizmente, não é possível evitar os impactos econômicos negativos dessa pandemia, porém as autoridades brasileiras já adotaram diversas medidas para tentar minimizá-los. Do lado monetário:

  • Redução da taxa de juros de 4,25% a.a. para 3,75% a.a.;
  • Expansão da oferta de crédito em R$ 75 bilhões via Caixa Econômica Federal;
  • Redução do recolhimento compulsório, que deve liberar R$ 35 bilhões.

Do lado fiscal:

  • Antecipação de pagamentos, como a primeira parcela do décimo terceiro salário dos aposentados;
  • Postergação do recolhimento
    de tributos;
  • Expansão de gastos focalizados, com especial destaque para a área da saúde e a transferência de renda;
  • Intenção de dar sequência à agenda de reformas, principalmente nas propostas que flexibilizam ou reduzem a pressão sobre o orçamento público, como a PEC Emergencial, a PEC DDD e a reforma administrativa.

Apesar dessas medidas, muito em breve, novas ações serão necessárias, notadamente aquelas voltadas para socorrer as empresas e os setores mais atingidos, além das famílias mais vulneráveis. No entanto, há vários obstáculos:

  • Qual é o tamanho da munição realmente disponível do lado fiscal? Quanto é possível mitigar os efeitos da pandemia sem condenar o Estado a uma falência?
  • Como fazer esse socorro chegar ao setor informal, que será fortemente atingido?
  • Como atender a pressão social que poderá surgir do “espólio” dessa pandemia?
  • Como evitar que os limitados recursos disponíveis sejam alocados em setores ou atividades que passarão por mudanças estruturais e não voltarão a operar da mesma forma que antes da pandemia?
  • Quais lideranças conseguirão realmente conduzir a sociedade brasileira para essa recuperação?

Enfim, certamente, estamos diante da crise que marcará a nossa geração. Vamos fazer o nosso melhor para reduzir os seus impactos hoje e construir um caminho de reconstrução para amanhã.

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